quarta-feira, 14 de abril de 2010

Alfabetização à partir de Paulo Freire.

“Alfabetização, mesmo numa compreensão superficial, é um exercício através do qual o alfabetizando vai se aponderando pouco a pouco, do profundo mistério da linguagem” (FREIRE, Ana.2001, p.126).

A alfabetização, a leitura e a produção textual têm sido alvo de grandes discussões por parte de vários educadores. Há muitos anos se observam algumas dificuldades de aprendizagem e altos índices de reprovação e evasão escolar. Dentre as questões mais focalizadas, destaca-se o ensino da língua materna. São relatadas inúmeras dificuldades na escola. O aluno escreve muitas vezes textos com insegurança lingüística demonstrando fracassos das práticas das aulas, falta de compreensão do que se lê, e analfabetismo funcional.
Uma função primordial da escola seria, para grande parte dos educadores, propiciar aos alunos caminhos para que eles aprendam, de forma consciente e consistente, os mecanismos de apropriação de conhecimentos. Possibilitar que os alunos atuem, criticamente em seu espaço social, relacionando suas leituras com o cotidiano e realizando uma “leitura de mundo”, termo utilizado por Paulo Freire, onde se refere que essa mesma antecede a leitura e escrita formal.
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra da mesma maneira que o ato de ler palavras implica necessariamente uma contínua releitura do mundo...”(FREIRE,2002).

Hoje antigas ideias, porém básicas, como ensinar o alfabeto, as relações entre letras e sons, os diferentes sistemas de escrita que temos no mundo em que vivemos a ortografia, estão voltando a ter importância na alfabetização. Muitas pesquisas estão sendo feitas no campo da alfabetização, num esforço concentrado no sentido de buscar compreender a aprendizagem da escrita e da leitura como decifração da escrita e do mundo através da linguagem.

Alfabetizar é um processo de construção de novas interações: ler e escrever,com as informações que a criança já possui, leitura do contexto em que se vive, escuta sensível, saber pensar, pensamento flexível e curioso, comunicar e usar recursos, enfim várias informações interdisciplinares e transdisciplinares.
Ainda no Brasil, temos um quadro de milhões de pessoas com 15 anos e mais não sabem ler e escrever, ou encontram-se em um nível de analfabetismo funcional de não compreenderem textos simples, como uma pequeno texto informativo ou instrutivo.
Para Freire o analfabetismo é a expressão da pobreza, consequência inevitável de uma estrutura social injusta.Para controlá-lo torna-se necessário conhecer as condições de vida do analfabeto, sua cultura. Não é uma aquestão pedagógica, mais política: é a negação de um direito ao lado da negação de outros direitos (Freire, 1995:p.26).

Também complementa falando que a alfabetização por si só não liberta. É um fator somado a outros fatores. O alfabetizando que aprende a ler e escrever precisa continuar se exercitando para não regredir ao analfabetismo.
O educador é o mediador entre o educando e a escrita.O sujeito constrói o seu próprio conhecimento para apropriar-se dos outros conhecimentos.

Freire também é forte referencial teórico, metodológico, elaborado de forma sistematizada para a alfabetização de jovens e adultos no Brasil. Parte do contexto histórico que vivia e de sua experiência prática com classes populares, elabora e desenvolve um conjunto de procedimentos pedagógicos que, naquele momento, atendia a uma necessidade dos alfabetizandos -trabalhadores em desenvolver suas formas de comunicação: linguagem oral e escrita e atender suas necessidades de organização. O método, portanto, é histórico, tem profundas marcas históricas muito configuradas. Nas ultimas décadas uma sociedade de conhecimento se anuncia exigindo novas formas de lidar com os avanços da comunicação e da tecnologia. Reconhece e recomenda a necessidade de atualização do seu "método" e, para isso, oferece suporte teórico para aqueles que se dedicam à alfabetização.

Fala e critica educação "bancária", que privilegia os conteúdos e resultados em detrimento dos processos e das experiências culturais dos alunos. Já a educação"transformadora”, que defende, toma a cultura popular como ponto de partida para a produção de um saber sistematizado. Explica as relações pedagógicas como processo que envolve uma leitura/compreensão do mundo, um respeito ao alfabetizando como um ser portador e produtor de cultura, uma compreensão dos saberes necessários ao professor que "ensina certo" (Freire, 1996), uma visão de educação, escola e alfabetização como que fazeres articulados e instrumentos de construção de cultura. Uma pedagogia "bancária" ,não poderia dar conta dessa explicação. Somente uma pedagogia de bases filosófica marxista pode nos ajudar a entender esse processo.

A alfabetização trata-se de um processo cauteloso, pois além da necessidade de estimulação, é também necessário que sejam oferecidas as devidas condições tais como: professores preparados, atividades interdisciplinares, oferecimento dessa modalidade de ensino pelas instituições educacionais .

A família é importante contribuindo para incentivar o analfabeto a alfabetizar-se, sendo ele criança em idade regular escolar ou adulto. Os professores devem oportunizar aos educandos, atividades que conduzem à aquisição do saber. Desta forma, a alfabetização estará contribuindo na formação integral do sujeito e o conhecimento adquirido irá muito além de um simples saber, para um saber fazer, onde o alfabetizando aprimore seus conhecimentos, seu pensamento crítico-reflexivo, realize-se como indivíduo, atue e transforme a comunidade em que vive, de acordo com suas necessidades.

Na realidade a alfabetização não tem uma “receita mágica”. Há vários métodos em que podemos nos utilizar para melhor aplicá-la, mas não há um segredo específico. Cada turma tem sua realidade, cada sujeito é único e cada aprendizagem tem o seu tempo e limites. Nesse aspecto Paulo Freire nos auxilia e muito: a não homogeneizar sujeitos , a valorizar cada realidade, trabalhando com ela e a realizar essa tão falada “leitura de mundo” que é essencial ao anteceder a escrita e leitura dos do sistema simbólico. Uma leitura de Paulo Freire também é indispensável, na minha opinião, para quem alfabetiza e trabalha em classes populares, pois abre um leque de reflexões e nos inspira como professores a compreender que a alfabetização é um processo contínuo, que dura uma vida inteira. A cada tempo nos alfabetizamos em algo, ou em algum conhecimento. Nos faz ter a consciência de estarmos em uma constante busca por mais conhecimentos, o que refletirá em nossos educando.


FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Vozes, 1985.

_________. À sombra desta mangueira.2a edição, Ed. Olho D’água, São Paulo, 1995, 120p.

__________. "Desafios da Educação e Adultos Frente à Restruturação Tecnológica". Texto apresentado na Conferência apresentada no II Seminário Internacional de Educação e Escolarização de Jovens e Adultos. Parlamento Latino Americano: São Paulo, abril/maio, 1996a, 16p.
__________. Pedagogia da esperança: Um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, 245 p.
__________. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997. - (Coleção Leituras).

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