quarta-feira, 14 de abril de 2010

PEDAGOGIA : UMA CONCEPÇÃO FREIREANA

Flávia Garcia Fernandes


“A Pedagogia dos sonhos possíveis revela-se, hoje, em muitos espaços e não se constitui apenas como probabilidade. Apresenta-se como uma expressão visível do movimento dialético nela contido, manifestando-se em modos muito criativos e ousados que vão se fazendo e refazendo, desvelando e escancarando, bem ao gosto de Paulo Freire, o que está envolto em equívocos, contradições e mau uso do poder” (FREIRE, 2001, p.297).

Grande parte da população em nossa sociedade é excluída da educação.Vivemos em uma sociedade dividida em classes, sendo que os privilégios de uns, impedem que a maioria, usufrua dos bens necessários para uma vida digna.e para concretizar os sonhos de “ser mais” em uma sociedade. Freire refere-se a dois tipos de pedagogia: a pedagogia dos dominantes, onde a educação existe como prática da dominação, e a pedagogia do oprimido, que precisa ser realizada, na qual a educação surgiria como prática da liberdade.

O movimento para a liberdade, deve surgir e partir dos próprios oprimidos, e a pedagogia decorrente será “aquela que tem que ser forjada com ele e não para ele, enquanto homens ou povos, na luta incessante de recuperação de sua humanidade”. Não é suficiente que o oprimido tenha consciência crítica da opressão, mas, que se disponha a transformar essa realidade; trata-se de um trabalho de conscientização e politização.

A pedagogia dominante é fundamentada em uma concepção bancária de educação, predominada por um discurso e prática, na qual, quem é o sujeito da educação é o educador e os educandos, são como vasilhas a serem enchidas. O educador “deposita” conhecimentos e estes, recebem, memorizam e repetem.

Esse tipo de educação pressupõe um mundo harmonioso, no qual não há contradições, o educando sempre conserva a ingenuidade do oprimido, que como tal se acostuma e acomoda no mundo da opressão. Então continua dessa forma uma pedagogia da opressão, que permeia séculos e séculos da nossa história.

Ainda comenta que o futuro não virá se não falamos dele ao mesmo tempo que o fazemos. O futuro existe como uma necessidade da História e implica sua continuidade. “A educação que se precisa hoje não tem nada que ver como um sonho, utopias, conscientização e sim com a formação técnica, científica, profissional do educando”( Freire,1995, p.28). Na verdade, a despolitização da educação foi sempre algo de interesse dominante, para que a educação precise tanto da forma técnica, científica quanto da esperança e de melhores perspectivas.

É possível não ser um sujeito passivo às conseqüências da globalização, apenas aceitando as ordens dominantes nessa luta desigual contra os excluídos do planeta, lendo os contextos e o mundo, e não apenas aceitando aquela prática educativa de “leitura da palavra e de texto”.
A esperança é condicionada às possibilidades de concretização ou não dentro da pedagogia:
“A esperança na libertação não significa já a libertação. È preciso lutar por ela, dentro de condições historicamente favoráveis. Se elas não existem, temos de planejar esperançadamente. A libertação é possibilidade, não sina, nem destino, nem fado. Nesse contexto, se percebe a importância da educação da decisão, da opção, da ética, afinal”(Freire, 1995:p.30”).

Quanto mais submetidos e menos podendo sonhar com a liberdade, menos o ser humano poderá enfrentar seus desafios, e menos perspectivas utópicas haverão em relação ao futuro, e a Educação passa a serviço da dominação , sem provocar o pensamento crítico e dialético, estimulando o pensar ingênuo sobre o mundo. Quanto mais nos enraizamos em nossa localidade, mais possibilidades hão de nos mundializar, pois não nos tornamos locais a partir do universal, ao contrário, partimos do local em rumo ao universo. O local onde o sujeito se fixa torna-se um espaço cultural, histórico, geográfico, de semelhanças e apego aos demais sujeitos de tal local.

Em sua obra Pedagogia do Oprimido, Freire aponta para uma maneira de conscientizar as pessoas sobre a realidade social, com as suas contradições A educação não poderia ser desvinculada do seu principal objetivo, que, segundo ele é a construção de uma sociedade mais justa.e é por essa pedagogia da autonomia, da liberdade, dos sonhos possíveis a ser conquistados que Freire demais educadores freirianos lutam e tentam construir na sociedade. O otimismo, a esperança, a reflexão, o diálogo, o escutar, a rejeição a todos os tipos de discriminação, a pesquisa e o respeito mútuo entre educador e educandos também estão sempre presentes na pedagogia em que Paulo Freire tenta construir diariamente como filósofo, sujeito humano, professor , latino-americano e brasileiro.

A partir de Paulo Freire construímos uma pedagogia todos os dias, tentando tornar nossos sonhos possíveis dentro da educação.É na prática diária que nós educadores, tornamos reais tais sonhos, mostrando realizações efetivas, na busca de uma sociedade mais justa, menos desigual, tirando a escola da inércia, (re)significando pedagogicamente nossas escolas e humanizando-as.
FREIRE, Paulo.. Pedagogia dos sonhos possíveis. Org. Ana Maria Freire. Série Paulo Freire, São Paulo: Unesp, 2001, 300p.
__________. Pedagogia da esperança: Um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, 245 p.
__________. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997. - (Coleção Leituras).

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