sábado, 7 de janeiro de 2012

A produção do fracasso escolar





Resenha do livro "A produção do fracasso escolar" de Maria Helena Souza Patto.

CAPÍTULO II. O modo capitalista de pensar a escolaridade: anotações sobre o caso brasileiro

Fracasso escolar dados sobre a pré-história de uma explicação








Primeira República e liberalismo: já no início de 1889 nasce patrocínio intelectual ao liberalismo.
A educação escolar era privilégio de pouquíssimos, menos de 3 % da população freqüentava a escola e 90% da população adulta era analfabeta. O período de 1889 a 1930 foi de vigência de uma República oligárquica.
Em 1930, ano do acaso da primeira República, o crescimento da rede pública de ensino era inexpressivo em comparação com as estatísticas referentes ao império e o país possuía cerca de 75% de analfabetos. Até esse ano não dispúnhamos de um sistema de educação popular.
Com o movimento da Escola Nova, que refletiu a sua eficiência, e escolhia a idéia de democracia e localizava os métodos de ensino, reconhecendo a especificidade psicológica da criança.
Os percursos da Escola Nova preocupavam-se com os indivíduos no processo de aprendizagem somente na medida em que atentar para os processos individuais, tentando desenvolver ao máximo as potencialidades humanas dos educandos.


A pedagogia Nova e a psicologia científica nasceram imbuídas do espírito liberal e propôs-se a identificar e promover os mais capazes, independentemente de suas origens étnicas e sociais.
Nessa época, no Brasil o pensamento preconceituoso contra o negro, mestiço, índio, de possuírem inteligência inferior, personalidade selvagem.

Causas do fracasso escolar

-Má qualidade do corpo docente, de quem se cobra vocação (e só secundariamente preparo pedagógico), dom e aquele “fogo sagrado” de realizar milagres em quaisquer situações.
-Política nacional que insiste em destinas ao primeiro ano professores sem a necessária motivação e vocação que a alfabetização exige.
-Para se ter um ensino de boa qualidade há necessidade de um professor interessado e bem formado, que leve em conta as especificidades do alunado (experiência culturais) faixa etária, garantindo a eficiência da escola.
Até o inicio dos anos 60 as causas do fracasso escolar serão buscadas no aluno. Consolidando a teoria da carência cultural.
Nos anos 70 se aceita no Brasil a explicação de que o fracasso escolar das crianças das classes subalternas é compreensível por vários motivos:
Sociedade não negadora do capitalismo;
Vinha ao encontro a crenças na cultura a respeito da incapacidade de pobres, negros e mestiços, reforçando o subdesenvolvimento econômico do país, explicado também por uma indigência cultural e intelectual, cuja revisão era proclamada ao “milagre brasileiro”.
Ressaltando a pobreza e miséria atraindo a atenção de educadores sensíveis aos problemas de desigualdades sociais, mas pouco instrumentados teoricamente, em decorrência de sua formação intelectual para fazer a critica desse discurso ideológico.
Outro fator importante é sobre a falta de interesse na freqüência das escolas é falta de necessidade vista pela comunidade, indiferença de classes populares.Em muitos artigos de revistas dos anos 70 presenciamos estereótipos e preconceitos em relação aos integrantes dos segmentos mais empobrecidos das classes subalternas. Sugerem que a passagem da defesa nominal da igualdade de oportunidades educacionais para medidas educacionais concretas.

O fracasso escolar como objeto de estudo

O advento dos sistemas nacional de ensino se deu pelo nacionalismo, obra da burguesia de 1789 que defendendo um regime constitucional, acreditava estar sendo porta-voz dos interesses do povo tomando como sinônimo de nação.
Em sentido escrito, uma política educacional, tem início no século XIX e decorre de três vertentes de visão de mundo dominante na nova ordem social: de um lado, a crença no poder da razão e da ciência, legado do iluminismo, de outro, o projeto liberal de um mundo aonde a igualdade de oportunidade viesse a substituir a desigualdade baseada na herança familiar, e a luta pela consolidação dos estados nacionais empregados na política européia no século XIX.
A ideologia nacionalista parece ter sido a principal propulsora de uma política mais ofensiva de implantações de redes publicas de ensino em partes da Europa e América do Norte nas últimas décadas do século XIX.
Cria-se na chegada de uma vida social igualitária, mas não existia uma efetiva política educacional, pouca qualificação de mão-de-obra no advento do capitalismo e alternativas para supri-las; a desnecessidade de adicionar a escola enquanto aparto ideológico nos anos que seguem à Revolução Francesa, até pelo o final da primeira metade dos oitocentos, as pressões inexpressivas das classes populares por escolarização nos primeiros anos da nova ordem social e a própria marcha do nacionalismo.
De 1780 até pelo menos 1870, a escola foi uma instituição necessária à qualificação das classes populares para o trabalho que movia os setores primário e secundário da economia capitalista.
As questões da adequação da classe de trabalhadores às novas condições de trabalho (relacionando a indústria) eram resolvida por outros meios que não a escola , o trabalhador recebia treinamento na fábrica, tendo essa função escolar.
A precária rede de ensino público fundamental da primeira metade do século XIX tece a função social de preparar funcionários de baixo e médio escalão para o desenvolvimento do estado moderno, já que a maioria fazia trabalhos braçais.

As teorias crítico-reprodutivistas e a pesquisa do fracasso escolar.

A teoria da carência cultural introduzia a possibilidade de se pensar o papel da escola no âmbito de uma concepção crítica de sociedade, fornecendo ferramentas conceituais para o último das instituições sociais enquanto lugares nos quais se exerce a dominação cultural, a ideologização a serviço da reprodução; na escola, o embaçamento da visão da exploração seria produzido, segundo essa teoria, pela vinculação de conteúdos ideologicamente visados e do privilegiamento de estilos de pensamento e de linguagem características dos integrantes das classes dominantes, o que faria do sistema de ensino instrumento a serviço da manutenção dos privilégios educacionais e profissionais dos que têm o poder econômico e o capital cultural.





Três afirmações se fazem presente nas publicações recentes precisando ser questionadas:





1.As dificuldades de aprendizagem escolar da criança pobre decorrem de suas condições de vida.
2.A escola pública é uma escola adequada às crianças de classe média e o professor tende agir, em sala de aula, tendo em mente um aluno ideal.
3.Os professores não entendem ou discriminam seus alunos de classe baixa por terem pouca sensibilidade e grande falta de conhecimento a respeito dos padrões culturais dos alunos pobres, em função de sua condição de classe média.
-A vida na escola: verso e reverso da racionalidade burocrática.
-A teoria e a pesquisa.

O maior desafio que se coloca ao pesquisador da escola hoje, segundo Maria Helena Patto, é o de repensar seus pontos de referencia teorico-metodológicos, pois as reflexões sobre a educação escolar no país vislumbrou novas possibilidades de conceber a escola numa sociedade de classe.
A partir de então a representação dominante da escola como instituição social a serviço da ascensão social dos mais capazes, pode ser superada por um conceito de escola como instituição reprodutora das desigualdades sociais geradas no nível da divisão e da organização do trabalho.

Para Agnes Heller, segundo a autora o preconceito é um juízo falso.Individualidade para referir-se ao indivíduo que tem liberdade (sempre relativa) de fazer escolhas.
O preconceito tem como componente afetivo à fé, um dos afetos que pode nos ligar a uma opinião, visão ou convicção. Seu limite é as intolerâncias emocionais, ligadas à satisfação de necessidades da particularidade.

Agnes Heller, pensadora húngara radicada na Austrália, nascida em 1929, discípula de Luckás, elabora uma teoria que redefine o sujeito, o lugar e as estratégias da transformação social negadora da sociedade de classe. De acordo com sua análise, ora a classe operária comparece nessa obra, como autora da história, ora as contradições inerentes à formação capitalista são tomadas como seu motor.






Heller relata que Marx contém uma contradição particular: por um lado construiu filosoficamente o sujeito da revolução, ou seja, formulou a hipótese de uma classe que, necessariamente, enquanto classe, através de um processo revolucionário, liberta toda a humanidade. Por outro lado, descreveu a sociedade capitalista de modo a demonstrar que as leis econômicas conduzem uma revolução histórico social. Esta contradição interna gerou, a seu ver categorias teóricas opostas no próprio pensamento marxista: há os que deixam de lado a questão do sujeito e se voltam para a objetividade das leis do desenvolvimento econômico e outros que desenvolvem o mito da classe operária e ignoram a critica da economia, considerando irrelevante.





Para ela ainda, os preconceitos, têm a função de consolidar e manter a estabilidade de integrações sociais. A maior parte deles é produto da classe dominante que se interessa em manter a coesão de uma estrutura social, graças também a mobilização, através de preconceitos, dos que representam interesses diversos ou até mesmo antagônicos, conseguindo mobilizar as camadas sociais contra os interesses de sua própria classe.







As relações sociais degradam-se à medida que os sistemas funcionais da sociedade vão-se estereotipando e os comportamentos convertem-se em papéis.
Há necessidade de ressaltar a importância da subjetividade, da história de vida e da unidade das pessoas no contexto social.O cotidiano é palco da bebeldia, revolução e dominação e não existe submissão total, pois na realidade o homem não é infinitamente manipulável.
A história recente das pesquisas educacionais no Brasil tentam superar formas tradicionais de investigar a questão da escolarização das classes subalternas, “à medida que muda a base histórica. Há uma tendência de abandono da quantificação em nome de procedimentos não estatísticos e qualitativos de coleta e análise de dados, como se desse garantia do caráter não positivista da metodologia”.
A forma de observar bem é ir formulando as hipóteses de observar, entrevistar, associar idéias, imagens, sentimentos e registros que o pesquisador trará para dentro da pesquisa refletindo os significados sobre a investigação.
A partir de 1964 a educação escolar brasileira foi alvo de uma multiplicidade de leis, decretos, pareceres, portarias, entre essas a lei 5.692 que, em 1971 reformou a LDB (lei 4.024), que dez anos antes, fixou as diretrizes e bases da educação nacional.
Foi expandidas a escolaridade obrigatória e gratuidade de quatro para oito anos, deu a ação educativa uma direção profissionalizante, visando maior eficiência e produtividade, mas infelizmente na realidade esteve distante da realidade.
A política educacional no sentido estrito começou a ser praticada no Brasil nos anos 30, junto com a aceleração do processo de industrialização capitalista conduzidos por princípios da liberal democracia e nacionalismo.
A burocratização das instituições sociais aumenta á medida que o país se desenvolve no processo industrial urbano.O primeiro Ministério da Educação é criado em 1930, tornando-se um elo social burocrático, ligado ao ideal de progresso.
A partir de 1964, em nome da eficiência e da produtividade do sistema, desdobra-se a hierarquia e aumenta a burocracia, permitindo que a educação atinja finalidades políticas sob a aparência de neutralidade, e se criam condições para a improdutividade do sistema escolar.Inclui-se reforma do ensino: garantir a continuidade estrutura social e do modelo econômico introduzindo uma descontinuidade no plano político, onde uma ideologia nacionalista colocava em risco um capital de mercado consolidado no Brasil.
Foi finalizada do ângulo dos interesses das classes dominantes e de seu poder constituído.

Disciplina

Foucault (1977) detém-se na análise das “disciplinas”enquanto conjunto de “métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo e que realizam a sujeição de constante de suas forças e lhe impõe uma relação de docilidade-utilidade.Distingue esses métodos de outras formas de dominação, que além do aumento das habilidades do corpo humanos e sua sujeição formam uma relação mais obediente e útil.Através da “militarização insidiosa” das instituições sociais, entre as quais se incluía a escola, nasce a partir da segunda metade do século XVIII uma microfísica do poder que permite que se tenha “domínio sobre os corpos dos outros não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, segundo a rapidez, eficácia e técnicas que se determinam.
A disciplina para Foucault fabrica corpus submissos e exercitados, “corpos dóceis”.Aumenta as forças do corpo( em termos econômicos) e diminui essas mesmas forças (em políticos de obediência)
O controle disciplinar não consiste apenas em ensinar ou impor uma série de gestos definidos,impõem a melhor relação entre o gesto e a atitude de rapidez.
No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo,nada deve ficar ocioso ou útil, deve ser chamado a formar o suporte do ato requerido.Um corpo bem disciplinado forma o contexto de realização do domínio do gesto.

Reflexões sobre a política educacional

As explicações do fracasso escolar baseadas nas teorias do déficit e da diferença cultural precisam ser revistas a partir do conhecimento dos mecanismos escolares produtores de dificuldades de aprendizagens.
Segundo a autora Patto, a inadequação da escola decorre muito mais de sua má qualidade ,da suposição de que os alunos pobres não têm habilidades que na realidade muitas vezes possuem, da expectativa de que a clientela não aprenda ou que o faça em condições em vários sentidos adversas ä aprendizagem, tudo isso a partir de uma desvalorização social dos usuários mais empobrecidos da escola pública elementar.
Temos muitas suposições, muitas vezes de cunho nitidamente ideológico, que estamos acostumados a tomar, sem contestar, com verdades definitivas.
A experiência educacional conduzida pelo GEEMPA- Grupo de Estudos sobre Educação, Métodos de Pesquisa e Ação de Porto Alegre, permitiu chegar a conclusões do seguinte teor resultados surpreendentes: não foram encontradas crianças subnutridas nem com problemas neurológicos em grupos de multirepetentes.
O fracasso da escola pública elementar é o resultado inevitável de um sistema educacional gerador de obstáculos ã valorização do trabalho pedagógico e marcas do sistema público inadequado dos processos de ensino,de avaliação de aprendizagem, precariedade das condições de trabalho do professor,sua insatisfação profissional e suas lacunas de formação.
Estudiosos da conduta burocrática afirmam que a vida cotidiana nas sociedades capitalistas implicam exagerada dependência de regulamentos e padrões quantitativos, impessoalidade exagerada nas relações intra e extra grupo e resistências a mudança, onde o administrativo tem precedência sobre o pedagógico.
O cuidado para que o compromisso dos educadores seja cada criança e não com os números deve ser constante.
O fracasso da escola elementar é administrado por um discurso científico que, escudado em sua competência, naturaliza esse fracasso aos olhos de todos os envolvidos no processo.Existe uma visão das famílias pobres como portadores de defeitos morais, psíquicos, justificando a ineficácia da ação pedagógica.Esta visão preconceituosa, encontra apoio nos resultados de pesquisas que fundamentam tais afirmações de uma ciência que tem como álibi uma objetividade e neutralidade.
Segundo Heller “o enriquecimento das capacidades técnicas e manipulatórias não ocorre paralelamente ao enriquecimento do homem, pois quanto mais se estereotipam as funções do papel, tanto o homem pode crescer até sua missão histórica.”
A convivência de mecanismos de neutralização e rebeldia faz da escola um lugar propício á passagem ao compromisso humano- genérico.
A conduta burocrática é uma estrutura na qual a direção de atividades coletivas fica a cargo de um aparelho impessoal hierarquicamente organizado que deve agir segundo critérios impessoais de dominação, as organizações burocráticas se valem de mecanismos de neutralização do conflito, manipulando todas as instâncias.Heller lembra que as pessoas são únicas, não apenas portadoras de papéis.


O educador deve estar capacitado para uma escuta, que leve em conta as fantasias, angústias e defesas de quaisquer processos.
Apenas libertar-se dos preconceitos não significa desenvolver o caráter tolerante, mas essa tolerância é um princípio do liberalismo. As ideias tolerantes são passivas e por isso historicamente ineficazes quando destituídos de preconceitos opera com juízos provisórios baseados na confiança e não na fé.


É necessário espaço para que cada participante se torne indivíduo consciente das aspirações sociais e particulares socializando sua particularidade responsável. Essa é uma condição necessária para que a instituição se transforme numa comunidade de conteúdo positivo.


Resenha realizada por Flávia Garcia Fernandes.

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