domingo, 15 de janeiro de 2012

À sombra desta mangueira, de Paulo Freire.



SELEÇÃO DE FRASES E TÓPICOS DA OBRA



DE PAULO FREIRE






À sombra desta mangueira. 2a edição, Ed. Olho D’água, São Paulo, 1995, 120p.

ASSUNTO: SOLIDÃO – COMUNHÃO:

“Estar só tem sido ao longo da minha vida estar com. È interessante pensar agora o quanto sempre me foi importante, indispensável mesmo, estar com. Nunca me recolho como quem tem medo de companhia, como quem se basta a si mesmo, ou como quem se acha uma estranheza de mundo. Pelo contrário, recolhendo-me conheço melhor e reconheço minha finitude, minha indigência, que me inscrevem em permanente busca, inviável no isolamento. O isolamento só tem sentido quando, em vez de negar a comunhão, a confirma como um momento seu”. (p.17)

ASSUNTO: EDUCAÇÃO RESPOSTA-HISTÓRIA
“A educação da resposta não ajuda em nada a curiosidade indispensável ao processo cognitivo. Ao contrário, ela enfatiza a memorização mecânica de conteúdos. Só uma educação da pergunta aguça, estimula e reforça a curiosidade”. Não há erro da resposta em si, mas na ruptura entre ela e a pergunta, antes das perguntas provocadas já é dada a resposta, cortando a curiosidade. Para Freire “ter certeza, estar em dúvida, são formas de estar sendo”, construindo a história de cada um. (p.19)
- “Muito sonho possível ficou inviável pelo excesso de certeza de seus agentes, pelo voluntarismo com quem pretendiam moldar a História em vez de fazê-la com os outros, refazendo-se nesse processo. Se a história não é uma entidade superior que paira sobre nossas cabeças e nos possui, também não pode ser reduzida a objeto de nossa manipulação”. (p.21)
- Quanto mais nos enraizamos em nossa localidade, mais possibilidades hão de nos mundializar, pois não nos tornamos locais a partir do universal, ao contrário, partimos do local em rumo ao universo. O local onde o sujeito se fixa torna-se um espaço cultural, histórico, geográfico, de semelhanças e apego aos demais sujeitos de tal local. (p.26)
-”Servir à ordem dominante é o que fazem hoje intelectuais, ontem progressistas, que negando à prática educativa qualquer intenção desveladora, reduzem-na à pura transferência de conteúdos ‘suficientes’ para a vida feliz das gentes”. Consideram feliz a vida que se vive na adaptação ao mundo sem raivas, sem protestos, sem sonhos de transformação. O irônico nessa adesão, às vezes entusiástica, de antigos militantes progressistas, ao pragmatismo, está em que, acolhendo o que lhes parece novo, reencarnam fórmulas velhas, necessárias para preservar o poder das classes dominantes.
E fazem com ares de quem se acha atualizado, de quem supera ‘velharias ideológicas’. Falam da imperiosa necessidade de programas pedagógicos profissionalizantes mas desde que esvaziados de qualquer tentativa de compreensão crítica da sociedade. Esse discurso é feito em nome de posições progressistas! Contudo, ele é tão conservador quanto é falsamente progressista a prática educativa que nega o preparo técnico ao educando e trabalha apenas a politicidade da educação. O domínio técnico é tão importante para o profissional quanto à compreensão política o é para o cidadão. Não é possível separá-los... A Terra da gente envolve luta por sonhos diferentes, às vezes antagônicos, como os de suas classes sociais. Terra não é, afinal, uma abstração”. (p.27 e 28).

ASSUNTO: ESPERANÇA: (p.28,29)
Paulo Freire comenta que o futuro não virá se não falamos dele ao mesmo tempo que o fazemos. O futuro existe como uma necessidade da História e implica sua continuidade. “A educação que se precisa hoje não tem nada que ver como um sonho, utopias, conscientização e sim com a formação técnica, científica, profissional do educando” foram as frases utilizadas por alguns militantes de esquerda, que diziam que Paulo Freire já não tem sentido. Mas na verdade, a despolitização da educação foi sempre algo de interesse dominante, para que a educação precise tanto da forma técnica, científica quanto da esperança e de melhores perspectivas.
É possível não ser um sujeito passivo às conseqüências da globalização, apenas aceitando as ordens dominantes nessa luta desigual contra os excluídos do planeta, lendo os contextos e o mundo, e não apenas aceitando aquela prática educativa de “leitura da palavra e de texto”.
p.30 A esperança é condicionada às possibilidades de concretização ou não. “A esperança na libertação não significa já a libertação. È preciso lutar por ela, dentro de condições historicamente favoráveis. Se elas não existem, temos de planejar esperançadamente para criá-las. A libertação é possibilidade, não sina, nem destino, nem fado. Nesse contexto, se percebe a importância da educação da decisão, da opção, da ética, afinal”.
Quanto mais submetidos e menos podendo sonhar com a liberdade, menos o ser humano poderá enfrentar seus desafios, e menos perspectivas utópicas haverão em relação ao futuro, e a Educação passa a serviço da dominação, sem provocar o pensamento crítico e dialético, estimulando o pensar ingênuo sobre o mundo.
FOME:
p.31: “minha compreensão da fome não é dicionária: ao reconhecer a significação da palavra, devo conhecer as razões de ser do fenômeno. Se não posso ficar indiferente à dor de quem tem fome, também não posso sugerir-lhe que sua situação se deve à vontade de Deus. Isso é mentira”.
POLÍTICA:
p.32-33 “A perspectiva neoliberal reforça a pseudo- neutralidade da prática educativa, reduzindo-a a transferência de conteúdos aos educandos, a quem não se exige que os apreendam para que os aprendam, Essa “neutralidade” fundamenta a redução da formação do torneio em simples treino de técnicas e procedimentos no domínio do torno. Toda prática educativa que vá além disso, que evite a dicotomia leitura do mundo/ leitura da palavra, leitura do texto/leitura do contexto, perde o aval da pedagogia e se transforma em mera ideologia. Mais ainda: em palavra inadequada ao momento atual, sem classes sociais, sem conflitos, sem sonhos, sem utopias.
Tal separação ideológica entre texto e contexto, entre objeto e suas razões de ser implica erro lamentável, envolve uma castração da curiosidade epistemológica dos educandos. Por isso, ao aceitar mais educação para a classe trabalhadora, a classe dominante esbarra em seu limite. Por mais progressista e democrático, o empresário estará sempre limitado pelos interesses de sua classe social. Se o empresário ultrapassar esse limite e aceitar uma educação progressista, terminará por trabalhar contra si próprio. É possível que algum empresário se aventure em tal “conversão”; a classe, em seu conjunto, não. A História ainda não registrou nenhum suicídio de classe”.

p.38: “Em lugar de converter-me ao centro e eventualmente ganhar o poder, como progressista prefiro abraçar a pedagogia democrática e, sem saber quando, com as classes populares alcançar o poder para reinventá-lo”.
p.39: “As sociedades não se constituem pelo fado de ser isso ou aquilo; não têm o destino de serem pouco sérias ou exemplos de honradez. Sociedades não são, estão sendo o que delas fazemos na História, como possibilidade. Daí a nossa responsabilidade ética”.

p.41: “Neoliberais e progressistas concordamos com a exigência atual que faz a tecnologia. Mas divergimos frontalmente na resposta pedagógico- política a ser dada”.

p.40 ÉTICA: “Na compreensão da História como possibilidade, o amanhã é problemático. Para que ele venha é preciso que o construamos mediante a transformação do hoje. Há possibilidades para diferentes amanhãs. A luta já não se reduz a retardar o que virá ou a assegurar a sua chegada; é preciso reinventar o mundo. A educação é indispensável nessa reinvenção. Assumirmo-nos como sujeitos e objetos da História nos torna seres da decisão, da ruptura. Seres éticos”.




QUALIDADE E EVASÃO

p.46 “A elevação urgente da qualidade de nossa educação passa pelo respeito aos educadores e educadoras mediante substantiva melhora de seus salários, pela sua formação permanente e reformulação dos cursos de magistério”. Tudo isso implica a indispensável participação das universidades brasileiras, já que essa tarefa formadora não se restringe às Faculdades de Educação. Foi o que fizemos, minha equipe e eu, quando secretário de Educação da cidade de São Paulo. Conversei longamente com os reitores da PUC, Unicamp e USP e depois assinamos convênios. Contamos com a ajuda de ling6uistas, arte- educadores, professores de língua portuguesa, físicos, matemáticos, especialistas em informática, filósofos, especialistas em teoria do currículo, em formação sexual...
Um dos problemas cruciais da educação brasileira-erroneamente chamado de evasão escolar, na verdade expulsão escolar-é político-ideológico. Sua solução passa pela formação do educador e implica uma compreensão política e ideológica da linguagem que o capacite a perceber o caráter de classe da fala. Os alarmantes índices de reprovação nas turmas de alfabetização relacionam-se ao despreparo científico dos educadores e educadoras e, também à ideologia elitista que discrimina meninos e meninas populares. Daí se explica, em parte, o descaso da escola pela identidade cultural dos educandos, o desrespeito pela sintaxe popular, a quase nenhuma atenção pelos conhecimentos feitos de experiência, que os educandos trazem em sua bagagem”.

p.47... ”Não temos por que nos arrepender da nossa insistência para que a escola pública se tornasse popular e democrática, isto é, menos autoritária e elitista”.

p.50 “Precisamos democraticamente derrotar é gente como esta, que pensa primeiro em si, segundo em si e nunca nos outros, sobretudo se estes pertencem às classes populares”.


JOVEM /VELHO




p.56E 57 “ Os critérios de avaliação da idade, da juventude ou da velhice, não podem ser os do calendário. Ninguém é velho só porque nasceu há muito tempo ou jovem porque nasceu há pouco. Somos velhos ou moços muito mais em função de como pensamos o mundo, da disponibilidade com que nos damos curiosos ao saber, cuja procura jamais nos cansa e cujo achado jamais nos deixa imovelmente satisfeitos. Somos moços ou velhos muito maiôs em função da vivacidade, da esperança com que estamos sempre prontos a começar tudo de novo e o que fizemos continua a encarnar sonho nosso, sonho eticamente válido e politicamente necessário. Somos moços ou velhos se nos inclinarmos ou não a aceitar a mudança como sinal de vida e não a paralisação como sinal de morte.
Somos moços na medida em que, lutando, vamos superando os preconceitos. Somos velhos se, apesar de termos apenas 22 anos, arrogantemente desprezamos os outros e o mundo. Vamos ficando velhos na medida em que, despercebidamente, recusamos a novidade como argumento de que “no meu tempo era melhor”. O melhor tempo para o jovem de 22 ou de 70 anos é o tempo que se vive. É vivendo o tempo como melhor possa, que o vivo jovem... Envelhecemos quando, reconhecendo a importância que temos em nosso meio, pensamos que ela deve a nós mesmos, que ela se constitui em nós e não nas relações entre nós, os outros e o mundo.
O orgulho e a auto-suficiência nos envelhecem; só na humildade me abro à convivência em que ajudo e sou ajudado. Não me faço só, nem faço as coisas só. Faço-me com os outros e com eles faço coisas.
Tão mais juventude tenham o educador e a educadora quanto mais possibilidade terão de se comunicar com a juventude com quem, de um lado se ajudam a manter-se jovens e a quem de outro se ajudam a não perder a juventude.
...Somos falsamente jovens quando assumimos uma postura irresponsável em face do risco. Quando nos arriscamos pelo puro gosto do risco. O risco só tem sentido quando o corro por uma razão valiosa, um ideal, um sonho mais além do risco mesmo.
Há uma forma horrível de envelhecer: contrapor-se às necessárias mudanças políticas, econômicas e sociais, sem as quais não se superam injustiças. Mas não há juventude que não envelheça rapidamente na tentativa impossível de imobilizar a História, que é reacionarismo. Reacionarismo e juventude são tão incompatíveis quanto defender a vida com medo da liberdade, uma forma de negar a vida”.

SERIEDADE E ALEGRIA




P.72 “ Só para a mente autoritária o ato educativo é tarefa enfadonha. Para educadores e educadoras democráticos o ato de ensinar, de aprender, de estudar são que fazeres democráticos o ato de ensinar, de aprender, de estudar são que-fazeres exigentes, sérios, que não apenas provocam contentamento, mas que em si já são alegres.
A satisfação com que se põe em face dos alunos, a segurança com que lhes fala, a abertura com que os ouve, a justiça com que lida com seus problemas fazem do educador democrata modelo...”
p.73 “ Precisamos hoje no Brasil, talvez mais do que ontem de uma prática educativa exemplarmente democrática. Precisamos de campanhas realizadas, por exemplo, através de semanas de estudos da democracia em escolas públicas, privadas, universidades, escolas técnicas e sindicatos. Campanhas que encharcassem as cidades de democracia. Semanas em que se apresentasse a história da democracia. Semanas em que se apresentasse a história da democracia, em que se debatesses a relação entre democracia e ética, e classes populares, e economia. Eleições, direitos e deveres que elas implicam. Inexperiência democrática brasileira. Democracia e tolerância. Gosto da liberdade e democracia; forças inconciliavelmente contraditórias; forças conciliavelmente diferentes; unidade na diversidade.
Não que, de repente, eu pense que democracia se ensina e se aprende por meio de discursos: aprende-se e se ensina democracia. Mas é possível e necessário discutir a presença ou a ausência da prática democrática, as razões de ser, por exemplo, da nossa inexperiência democrática”.



DIALOGICIDADE
p.81... “ É que há um diálogo invisível, prévio, em que não necessito de inventar perguntas ou fabricar respostas. Os educadores verdadeiramente democráticos não estão-são dialógicos. Uma de suas tarefas substantivas em nossa sociedade é gestar esse clima dialógico”.



POLÍTICA
p.82 “ A afirmação ‘as coisas são assim porque não podem ser de outra maneira’ é um dos muitos instrumentos dos dominantes com que tentam abortar a resistência dos dominados. Quanto mais anestesiados historicamente, quanto mais fatalistamente imersos na realidade impossível de ser tocada, que dirá transformada, tanto menos futuro temos. A esperança se pulveriza no imobilidade de um presente esmagador, uma espécie de ponto final além do qual é possível.” (Paulo Freire, Pedagogia da Esperança)
p.88 “ Na verdade, regime de exceção nunca foi introdução à democracia. No tempo transcorrido desde que começamos a transição do autoritarismo à democracia, nos obstáculos enfrentados, sentíamos o risco de a esperança de esvair. Transição que agora termina e a partir de agora já não temos motivo para falar nela. De agora em diante, temos é que consolidar a democracia, respaldar suas instituições, assegurar o retorno do país ao desenvolvimento, ao equilíbrio da economia com que enfrentamos problemas sociais que nos afligem. Em aliança com a direita jamais faremos isso”.

(Consultar Ana Maria A. Freire, Analfabetismo no Brasil, 2ª edição revista e aumentada, São Paulo, Cortez, 1993).






Flávia G. Fernandes

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