sábado, 18 de fevereiro de 2012

Frases sobre Educação para Início do Ano letivo:Freire e Rubem Alves

 Paulo Freire:


"Um dos grandes pecados da escola é desconsiderar tudo com que a criança chega a ela. A escola decreta que antes dela não há nada."

"O professor é um coordenador de atividades que organiza e atua conjuntamente com os alunos."

"Além de um ato de conhecimento, a educação é também um ato político. É por isso que não há pedagogia neutra."

O caminho se faz caminhando.
Eu gosto esclusivamente desta porque no tempo que eu fui monitor de jovens e adulto na pedagogia Freiriana, foi esta frase que me deu todo o suporte.

"Pedagogia como prática para a liberdade" : Quando o oprimido liberta-se da opressão também liberta o opressor...

A leitura de mundo precede a leitura da palavra...
"A construção do conhecimento se faz através do diálogo"

"Se aprende com as diferenças e não com as igualdades"

Adoro esta: "O sonho de uma criança ao caminhar para a escola é encontrar um amigo, um guia, um animador, um líder. Alguém muito especial, consciente, envolvido em laços de afetividade, que se preocupa com ela e que seja capaz de fazê-la sorrir e aprender a construir sua própria aprendizagem."

O educador é entendido como alguém que traz conhecimento e não como um copo vazio, o educador não é o dono do saber ....
... ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho”.
A MELHOR MANEIRA DE EDUCAR É DAR EXEMPLO.


a)
"Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutro, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo".
b)
"Só desperta paixão de aprender, quem tem paixão de ensinar."
(Paulo Freire)
Reflexão, sobre quem é o educador.
" O educando se torna realmente educando quando na medida em que conhece, ou vai conhecendo (...) e não na medida em que educador vai depositando nele a descrição dos objetos ou dos contúdos".(FREIRE,1992)
"QUEM FORMA SE FORMA E RE-FORMA AO FORMAR E QUEM É FORMADO FORMA-SE E FORMA AO SER FORMADO".


"QUEM ENSINA APRENDE AO ENSINAR E QUEM APRENDE ENSINA AO APRENDER".
"É que a democracia, como qualquer sonho, não se faz com palavras desencarnadas, mas com reflexão e prática".

(Paulo Freire. Professora sim, tia não. p91)
"O mundo não é. O mundo está sendo." Paulo Freire, 1997
Lendo para preparar um trabalho, encontrei o que tinha a essência do que pensava:

“Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.
"GOSTO DE SER GENTE PORQUE A HISTÓRIA EM QUE ME FAÇO COM OS OUTROS E DE CUJA FEITURA TOMO PARTE É UM TEMPO DE POSSIBILIDADES E NÃO DE DETERMINISMOS"
Entre tantas frases de Paulo Freire que norteiam minha ação pedagógica, citaria a que mais define o meu trabalho: "Não se pode falar de educação sem amor".
"As crianças têm uma sensibilidade enorme para perceber que a professora faz exatamente o contrário do que diz".
( Paulo Freire )





RUBEM ALVES





"OS OLHOS SÃO A LÂMPADA DO CORPO. QUANDO A LUZ DOS OLHOS É COLORIDA, O MUNDO VIRA UM ARCO-ÍRIS"



"QUEM TOLERA TUDO É PORQUE NÃO SE IMPORTA COM NADA"

"Pessoas que fizeram do ato de engolir sapos um hábito acabam por ficar parecidas com eles: andam aos pulos, sempre rente ao chão e coaxam monotonamente."


A beleza é triste pois ela está no lugar de algo que se foi.
O tempo perdido não pode ser recuperado.
Sua beleza só pode ser vivida como ausência: a beleza dói...
Magia é isto: invocar o que se foi, mas que continua a nos habitar. Ou será poesia? (Rubem Alves)
"Amizade é o encontro de duas solidões. Quando duas solidões se encontram, acontece a comunhão". (Rubens Alves)

"Ódio produz casamentos duradouros. O ódio não suporta a idéia de ver o outro voando livre, para longe... O ódio segura, para que o outro não seja feliz. O ódio gruda mais que amor. Porque o amor deixa o outro voar..." (Rubens Alves)

A alma é uma paisagem. As paisagens da alma não podem ser comunicadas. Quando mais fundo entramos nas paisagens da alma, mais silenciosos ficamos. (Rubem Alves)

Um telefonema não é uma carta falada. Pois lhe falta o essencial o silêncio da solidão, a calma da caneta pousada sobre a mesa que espera e escolhe pensamentos e palavras. O telefone põe a solidão a perder. (Rubem Alves)

Muitas doenças da alma decorrem do fato de que nos levamos a sério. Os demônios são sérios e graves. Deus é leve e ri. "O riso é o início da oração" (R. Niebuhr). (Rubem Alves)

A proximidade da morte ilumina a vida. Aqueles que contemplam a morte nos olhos vêem melhor, porque ela tem o poder de apagar do cenário tudo aquilo que não é essencial. Os olhos dos vivos tocados pela morte são puros. Eles vêem aquilo que o amor tornou eterno. (Rubem Alves)
A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. (Rubem Alves)

A verdade não mora no que se diz, mas no como ele é dito. Ela não está na letra; está na música. Pouco importa que você esteja certo e que o outro seja o culpado. Os fatos não salvarão o seu amor. O que salva o amor é a música com que falamos... ( Rubem Alves)

O tempo perdido não pode ser recuperado. Sua beleza só pode ser vivida como ausência: a beleza dói... Magia é isto: invocar o que se foi, mas que continua a nos habitar. Ou será poesia? (Rubem Alves)

"Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo. A última coisa que se pode sentir diante da 'eterna novidade do mundo' é tédio. O pensamento é uma criança que explora essa caixa de brinquedos chamada mundo. Pensar é brincar com os pensamentos." (Rubem Alves)

Eu sou uma saudade imensa, cercada de carne por todos os lados.
Quem acredita que Deus tem uma câmara de torturas eterna não pode amá-lo. Só pode temê-lo. Mas, como Deus é amor, aquilo que é temido não pode ser Deus. Só pode ser o Diabo.(...)
"Você entendeu: esta estória é uma parábola sobre Deus. Quem acredita no inferno está, na realidade, acreditando em coisas horrendas sobre Deus. A questão crucial, portanto, nessa pergunta sobre a existência do inferno é: o que você pensa de Deus?"

Nossas Escolhas....
Não é de se admirar, portanto, que as pessoas passem suas vidas com a estranha sensação de que não era bem aquilo que desejavam. Elas foram alguma coisa diferente dos seus sonhos, e esta traição as condenou a infelicidade. Só lhes resta então compreender a verdade das palavras de Paulo Leminski: "Ai daqueles que não morderam o sonho e de cuja loucura nem mesmo a morte os redimirá".

" O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos."



" O que a memória ama fica eterno"
(do livro: O retorno e Terno - R. Alves)





Reflita com Rubem Alves>
# "Amizade não acontece por causa de concordância de palavras".
# "Saudade é uma maneira de sentir a vida".
# "Amizade existe sobre um pressuposto de afetividade".
# "Somos belos como os desejos de Deus".
#"A maioria dos pais não está interessada na educação dos seus filhos. Talvez nem saiba o que seja isto".
# "O livro nos conduz a um lugar de intimidade só nosso".
# "Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente".
# Amizade não acontece por causa de concordância de palavras – Rubem Alves



"Antes de ser feito com o corpo, o amor é feito com as palavras." Rubem Alves


É a saudade que torna encantadas as pessoas. A ausência faz crescer o desejo, purifica a memória." Rubem Alves


"Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno". Rubem Alves

AMOR - Rubem Alves...lindo demais!!
Amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação.De alguma forma a gota de chuva aparecerá de novo, o vento permitirá que velejemos de novo, mar afora. Morte e ressurreição. Na dialética do amor, a própria dialética do divino. Quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se tem nunca. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.

"De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...” Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança."

Rubem Alves
Psicanalista e professor emérito da Unicamp


Sociedades se constroem quando os homens concordam sobre coisas grandes. A amizade acontece quando os homens concordam sobre coisas pequenas



Por quê? Quem faz essa pergunta se encontra diante de um enigma, algo que não entende. Não entende e dói. É preciso que o não-entendido doa para que a pergunta brote. Há muitas coisas que não entendemos. Mas elas não doem. Não doendo, não fazemos a pergunta. Fazemos a pergunta para diminuir a dor, para dar sentido à dor.” RUBEM ALVES em "O amor que acende a lua".


"O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança: tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos."
( Rubem Alves )



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Atenção professores!!!

A que ponto chegamos.... Infelizmente não é um caso isolado e sim a realidade que as escolas


estão se tornando...



História de um professor

16 de julho de 2011

Caro Juremir (CORREIO DO POVO/POA/RS)!



Meu nome é Maurício Girardi. Sou Físico. Pela manhã sou vice-diretor

no Colégio Estadual Piratini, em Porto Alegre , onde à noite leciono a

disciplina de Física para os três anos do Ensino Médio. Pois bem, olha

só o que me aconteceu:estou eu dando aula para uma turma de segundo

ano. Era 21/06/11 e talvez pela entrada do inverno, resolveu também ir

à aula uma daquelas alunas “turista” que aparece uma que outra vez

para “fazer uma social”. Para rever os conhecidos. Por três vezes tive

que pedir licença para a mocinha para poder explicar o conteúdo que

abordávamos. Parece que estão fazendo um favor em nos permitir um

espaço de fala. Eis que após insistentes pedidos, estando eu no meio

de uma explicação que necessitava bastante atenção de todos, toca o

celular da menina, interrompendo todo um processo de desenvolvimento

de uma idéia e prejudicando o andamento da aula. Mudei o tom do pedido

e aconselhei aquela menina que, se objetivo dela não era o de estudar,

então que procurasse outro local, que fizesse um curso à distância ou

coisa do gênero, pois ali naquela sala estavam pessoas que queriam

aprender''e que o Colégio é um local onde se vai para estudar''.Então,

a “estudante” quis argumentar, quando falei que não discutiria com

ela. Neste momento tocou o sinal e fui para a troca de turma. A menina

resolveu ir embora e desceu as escadas chorando por ter sido

repreendida na frente de colegas. De casa, a mãe da menina ligou para

a Escola e falou com o vice-diretor da noite, relatando que tinha

conhecidos influentes em Porto Alegre e que aquilo não iria ficar

assim. Em nenhum momento procurou escutar a minha versão nem mesmo

para dizer, se fosse o caso, que minha postura teria sido errada.

Tampouco procurou a diretora da Escola. Qual passo dado pela mãe?

Polícia Civil! Isso mesmo, tive que comparecer no dia 13/07/11 na

oitava delegacia de polícia de Porto Alegre para prestar

esclarecimento por ter constrangido (?) uma adolescente (17 anos),

''que muito pouco frequenta a aula e quando o faz é para importunar,

atrapalhar seus colegas e professores''. A que ponto que chegamos?

Isso é um desabafo. Tenho 39 anos e resolvi ser professor porque

sempre gostei de ensinar, de ver alguém se apropriar do conhecimento e

crescer. Mas te confesso, está cada vez mais difícil. Sinceramente,

acho que é mais um professor que o Estado perde. Tenho outras opções

no mercado.

Em situações como essa, enxergamos a nossa fragilidade frente ao

sistema. Como leitor da tua coluna, e sabendo que abordas com

freqüência temas relacionados à educação, ''te peço que dediques umas

linhas a respeito da violência contra o professor''.





NÃO PRECISAMOS DE PROFESSORES

NÃO PRECISAMOS DE EDUCAÇÃO

AFINAL, PARA QUE SER UM PAIS DE 1° MUNDO SE ESTA BOM ASSIM



Ronaldinho Gaúcho: R$ 1.400.000,00 por mês.

"Homenageado na Academia Brasileira de Letras"... LETRADO ELE



Tiririca: R$ 36.000,00 por mês, fora os auxílios e mordomias;

"Membro da Comissão de Educação e Cultura do Congresso"...

COMO DIZEM OS GAUCHOS: “TCHÊ... QUE TAL?”



TRADUZINDO, O SALÁRIO DO PALHAÇO AI, PAGA SÓ 30 PROFESSORES, E PARA

AQUELES QUE ACHAM QUE EDUCAÇÃO NÃO É IMPORTANTE, CONTRATA O TIRIRICA

PARA DAR AULA PARA SEU FILHO.

Um funcionário da Sadia (nada contra) ganha hoje o mesmo salário de um

ACT ou um professor iniciante, levando em consideração para trabalhar

na empresa você precisa ter o fundamental, ou seja, de que adianta

estudar, fazer pós e mestrado?

Piso Nacional dos professores: R$ 1.187,00…

Moral da História:

Os professores ganham pouco, porque só servem para nos ensinar coisas

inúteis como: ler, escrever e pensar.

Sugestão:

Mudar a grade curricular das escolas, que passaria a ter as seguintes matérias:

- Educação Física: Futebol;

- Música: Sertaneja, Pagode, Axé;

- História: Grandes Personagens da Corrupção Brasileira; Biografia dos

Heróis do Big Brother; Evolução do Pensamento das "Celebridades"

- História da Arte: De Carla Perez a Faustão;

- Matemática: Multiplicação Fraudulenta do Dinheiro de Campanha;

Cálculo Percentual de Comissões e Propinas;

- Português e Literatura: ????? Para quê ?????

- Biologia, Física e Química: Excluídas por excesso de complexidade

Está bom, eu quero mais!

ESSE É O NOSSO BRASIL!!!

______________________________________________________________________

Olha o absurdo no Rio de Janeiro (que não é diferente no resto do Brasil)

BOPE R$ 2.260,00........................ para Arriscar a vida;

Bombeiro R$ 960,00.....................para Salvar vidas;

Professor R$ 728,00.....................para Preparar para a vida;

Médico R$ 1.260,00.......................para Manter a vida;



E o Deputado Federal?



Ganha R$ 26.700,00 para FERRAR a vida de todo mundo!

(Envie, e faça parte desta campanha conscientizadora.)
 

Autor Desconhecido. Texto recebido por e-mail.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

EDUCAÇÃO E PODER NA RACIONALIDADE DA COOPERAÇÃO1


EDUCAÇÃO E PODER NA RACIONALIDADE DA COOPERAÇÃO1


Walter Frantz2
2003

Resumo

A cooperação é uma ação que decorre de um ato de vontade política de indivíduos que passam a se identificar, a partir de necessidades ou interesses comuns. Desenvolvem uma conduta racional de associação em suas relações de identificação, de cujo processo nascem formas de organização e instrumentalização de seus interesses e objetivos. O comportamento co-operativo dos associados na empresa-cooperativa deve ser racionalmente organizado, através de normas, regras, contratos. A associação é o lugar dos acordos, dos debates; a organização é o lugar das regras, do contrato, da co-operação. Pela comunicação, no espaço da associação, organizam-se e estruturam seus instrumentos de ação co-operativa, desencadeando processos educativos e construindo relações de poder. Organizar uma cooperativa é buscar construir poder, especialmente, nas relações econômicas com o mercado. Os associados, construindo poder para a busca de soluções práticas, relativos aos seus problemas, induzem a um processo de aprendizagem: manipulam informações, aprendem e constroem conhecimentos. Educam-se, assim, nas relações sociais e econômicas de cooperação e de competição. Educar-se para o poder político com a finalidade de construir uma nova “ordem social” é uma etapa fundamental do processo de organização cooperativa.

Palavras-chave: cooperativismo, cooperação, educação, poder.


Cooperation is an action that derives from an act of political will of individuals that begin to identify by common necessities or interests. They develop a rational behavior of association in their relations of identification, performing a process that bears forms of organization and instrumentalization of their interests and objectives. The cooperative behavior of the associates in the cooperative company must be organized rationally, by norms, rules and contracts. The association is the place of the agreements, the debates; the organization is the place of the rules, the contract and the cooperation. Through the communication in the association’s space they organize themselves and structure their instruments of cooperative action, unchaining educative processes and constructing power relations. To organize a cooperative means to build up power, especially in the economic relations with the market. While building power to find practical solutions for their problems, the associates induce to a learning process: they manipulate information, they learn and build knowledge. Thus they educate themselves in the social and economic relations of cooperation and competition. To educate oneself to political power with the purpose to put up a new “social order“ is a basic stage of the cooperative organization process.
Keywords:








A compreensão da ação e da estrutura cooperativa


O cooperativismo não é uma ciência; é uma prática social. Por isso, recorre-se às diversas ciências para melhor entendê-la. As pessoas que se ocupam dessa prática social podem se servir de teorias do campo científico para compreender melhor aquilo que fazem ou o que ocorre nas organizações cooperativas. No entanto, é importante ter o cuidado de não “recortar” a realidade da prática social de modo a “adaptar-se” ao quadro referencial teórico. A teoria deve servir ao entendimento da prática, porém ela não consegue explicar toda a prática. Sempre restam dúvidas ou surgem novas perguntas que levam a novos conhecimentos, ao final, a novas teorizações.
Para a reflexão sobre o funcionamento de organizações cooperativas, deve-se buscar interlocução, diálogo, em diferentes campos de conhecimento, junto aos seus diversos teóricos. Normalmente, para isso, vai-se ao campo das ciências sociais. Os seus conceitos teóricos podem servir de orientação às reflexões sobre a organização e o funcionamento de cooperativas que se quer desenvolver. O recurso a esses conceitos explicativos teóricos permite expandir o pensamento e a noção compreensiva das atividades de cooperação, das práticas do cooperativismo. O confronto entre a teoria e a prática pode produzir maior clareza, maior compreensão daquilo que acontece, no dia-a-dia, dentro de uma organização cooperativa.
Na verdade, de certo modo, também todos os associados e funcionários, além de práticos, são também teóricos do cooperativismo, pois, ao discutirem sobre as suas experiências, produzem novos conhecimentos, elaboram conceitos que os ajudam a compreender melhor aquilo que acontece e que se faz nas cooperativas. Assim, pelo caminho da prática-reflexão-prática, os associados e os funcionários desenvolvem conhecimento, base para novas teorizações. A percepção e a sistematização desses conhecimentos, elaboradas nas práticas, podem se constituir em uma das melhores orientações à gestão das cooperativas.
Quanto mais se compreende os fenômenos e os acontecimentos em todos os espaços da vida, mais possibilidades de organização e ação se apresentam, diante de suas dificuldades ou interesses. Entre o conhecimento e a ação dos homens existe uma estreita relação. Dessa relação nasce o poder de ação. Pela organização cooperativa busca-se poder de ação. Portanto, faz sentido aprofundar o conhecimento teórico sobre o que é e como funciona uma cooperativa. O exercício do poder cooperativo depende dessa compreensão, depende de conhecimento.
O cooperativismo é um fenômeno social complexo e, de certo modo, polêmico. Diante da complexidade e da polêmica, é compreensível que surjam incertezas, muitas dúvidas e perguntas a respeito das práticas cooperativas, tais como: Qual a racionalidade da cooperação? Qual o uso social dos ideais e princípios do cooperativismo? Quais os mecanismos que regulam a organização cooperativa? Qual a relação entre a ação de cooperação dos indivíduos associados e a estrutura de organização cooperativa? Quais os efeitos dessa relação? Qual a solidariedade necessária à cooperação? Deve a organização cooperativa, como reação a uma situação de problemas ou dificuldades, também cultivar as dimensões não econômicas do fenômeno cooperativo? Teria a cooperação, predominantemente, suas raízes no egoísmo do ser humano, na busca por maximizar, individualmente, as vantagens entre diferentes escolhas, ou seria a cooperação também expressão de uma dimensão ou natureza solidária da sociabilidade do ser humano? Como deve ser a gestão de uma cooperativa, diante disso tudo? Diante das incertezas e das perguntas, abre-se o campo da pesquisa para as diversas ciências, para a teorização.
Afirma Morin (2000, p. 59) que a condição humana está marcada pelas incertezas. Portanto, mais que lacunas, as incertezas e questionamentos a respeito da natureza do cooperativismo, são elementos componentes da prática da cooperação. Não é na certeza, mas no diálogo entre os diferentes saberes que está o valor da pesquisa e o caminho de novas respostas. Constituir as condições do diálogo científico entre os diversos saberes e teorias é tarefa central à produção de conhecimento sobre as práticas cooperativas. A prática da pesquisa constitui o espaço de articulação e entrelaçamento das ciências, no caminho das teorias de explicação da ação e da estrutura de organização cooperativa.
Ensina Mario Osorio Marques (1998, p. 98) que

cumprida primeira tarefa de desenhar o seu tema, ou o eixo central, a espinha dorsal, de sua pesquisa, cabe agora ao pesquisador convocar uma específica comunidade de argumentação em que se efetive o unitário processo de interlocução e certificação social de saberes postos à discussão em cada tópico a ser desenvolvido.

O estudo e a pesquisa dessas dúvidas e perguntas constituem, hoje, após as diferentes experiências, a base de nossa nova relação com o cooperativismo, de modo especial, com as organizações cooperativas do meio rural. Os laços com o tema e a inquietação por sua melhor compreensão e a necessidade de encontrar respostas às perguntas acumuladas, ao longo dos anos de vivências e práticas, nos reconduzem, agora, pelos caminhos do estudo e da pesquisa, ao histórico lugar social de sonhos e esperança: as famílias da agricultura familiar, de alguma maneira, sempre depositaram no associativismo e na organização cooperativa uma esperança de poder melhorar, através de suas múltiplas práticas, as suas condições de vida. Assim, esperamos poder contribuir para a compreensão do sentido econômico da ação cooperativa e do conteúdo social, político e cultural da organização cooperativa.
O cooperativismo é uma prática social, em cujo centro estão questões do mundo da vida, especialmente as ligadas a sua base material. Como prática social está condicionada a diferentes tempos e lugares. Diante do quadro de profundas transformações, pelas quais passa a sociedade contemporânea, ressurge o cooperativismo, especialmente, no campo do trabalho, da economia, com diferentes sentidos e funções. Em muitas circunstâncias, as cooperativas aparecem mais como meios de garantir a “inscrição na estrutura social”, procurando evitar a exclusão social. Em outras circunstâncias, a cooperação se constitui em um instrumento de poder nas relações econômicas do mercado.
Organizações cooperativas nascem, como fenômenos sociais complexos, da articulação e da associação de indivíduos que se identificam por interesses ou necessidades, buscando o seu fortalecimento pela organização e instrumentalização, com vistas a objetivos e resultados, predominantemente, de ordem econômica. A cooperação é, em seu princípio constituinte, na economia de mercado, um acordo racional de sujeitos sobre algo, isto é, a economia, e os seus interesses e necessidades frente à produção e distribuição de bens e riquezas. Esse acordo se desenvolve, política e operacionalmente, nos espaços da associação e da empresa cooperativa, mediada pela comunicação.
A economia envolve aspectos de ordem técnica e política. É algo construído, inacabado, dinâmico, submetido a interesses. É um espaço entrecruzado de poder técnico e de poder político, no qual atuam os seus agentes e que é produzido a partir do conhecimento dessa dupla dimensão e relação. Assim, no espaço da organização cooperativa, se fazem presentes também questões sociais, políticas e culturais, que perpassam a sua natureza associativa e seu caráter instrumental.
A cooperação é uma ação que decorre de um ato de vontade política de indivíduos que passam a se identificar como sujeitos e atores, a partir de necessidades ou interesses comuns, em um determinado contexto social. Passam a pensar e agir de uma forma ordenada e esclarecida, associando-se na interação, com vistas à realização de seus objetivos. Normalmente, trata-se da afirmação de necessidades e interesses econômicos, no contexto do mercado, isto é, os associados buscam a valorização de seu trabalho. A cooperação, como tal, pode ser definida como um ato racional, de inteligência, pelo qual o contexto da realidade se torna compreensível, permitindo a ação organizada dos sujeitos sobre ela. Essa realidade pode ser a da produção e distribuição de riquezas, isto é, a realidade do mercado. Os associados produzem clareza a respeito da realidade e do contexto que os envolve, organizam ações de intervenção, em favor dos seus objetivos comuns. Assim, constituem-se atores no complexo jogo das relações econômicas e sociais do mercado. Pela organização cooperativa buscam constituir poder nas relações de mercado.
Uma cooperativa pode ser definida, teoricamente, como um espaço de poder. Um poder buscado pela cooperação. Porém, esse espaço de poder não existe em si mesmo. Ele existe em função de objetivos e interesses concretos, a partir dos quais passa a ser articulado socialmente, (...) o espaço de poder desses indivíduos é organizado no contexto da correlação de forças e interesses que agem sobre a produção e a distribuição dessa produção na sociedade. Na economia de mercado, essa organização se dá em relação ao exercício do poder, isto é, em relação à atuação da cooperativa no contexto desse mercado. (...) Pela organização cooperativa os indivíduos buscam o poder de inserção no mercado: onde desfrutam de uma posição individual de força econômica inferiorizada (Frantz, 1986 p. 56).

Organizações cooperativas abrigam diferentes relações de poder, diferentes práticas e ações de educação. Nessas práticas ou ações educativas ou relações de poder podemos encontrar interações do tipo comunicativo, isto é, entre os associados que discutem sobre a cooperação, ou do tipo estratégico, interações técnicas de mando, nos espaços operacionais da empresa. A educação e o poder são questões fundamentais, inerentes às organizações cooperativas, fundamentais às condições de estabilidade do empreendimento cooperativo. Tanto as relações do ato cooperativo quanto as relações dos negócios cooperativos se consolidam pela gestão adequada dessas duas questões, inerentes à associação e à empresa com finalidade co-operativa.
O poder é organizado no contexto da correlação de forças e interesses que agem sobre a produção, a sua posse e distribuição. As diferentes relações de poder ocorrem nos espaços da associação e da empresa, ou no espaço que se constitui entre esses dois pólos do empreendimento cooperativo.
Em entrevista, no ano de 2000, junto aos associados da COTRIJUÍ – Cooperativa Regional Tritícola Serrana Ltda., 91,1% responderam que a cooperativa representa força, poder. Somados aos 5,7% que responderam que apenas, em parte, representa força e poder, verifica-se que 96,8% dos associados entrevistados acreditam que a organização cooperativa representa poder. As razões apontadas para essa crença estão 60,6% fundamentadas no campo político, isto é, na associação, e 25,2% na empresa, quer dizer, no campo econômico. Apenas um entrevistado respondeu que a força, o poder da cooperativa, reside na legislação3. Isso revela que o associado tem consciência do poder de associação e organização, percebe-se como força.
A questão do poder aparece como um conjunto de relações presentes nos processos formais de funcionamento, sejam eles de domínio, uso e controle do conhecimento, do saber tecnológico de produção, uso e controle da informação, da comunicação, da administração ou da operação técnica das atividades e objetivos da cooperativa. Está nos espaços da organização, entre as pessoas ou grupos de associados, está nas relações com os agentes do mercado.
A educação como ação social ou como prática social aparece, muitas vezes, de forma difusa, associada a processos de comunicação, de interação entre os associados, dirigentes, funcionários ou outros interlocutores, presentes no espaço da cooperação. Aparece como uma ação “entre sujeitos” ou como uma “prática sobre outros”, procurando influenciá-los em suas idéias, modos de pensar, de interpretar a vida social, especialmente a da realidade cooperativa, sugerindo ou levando-os a comportamentos e visões de mundo, favoráveis à natureza da prática cooperativa.
De acordo com a mesma pesquisa realizada, junto aos associados da COTRIJUI, 73,2% estão concordam que a participação em práticas cooperativas é uma espécie de “escola da vida”, 19,1% concordam em parte e 7,6% não concordam. Dos entrevistados 29,3% relacionam esse sentido educativo com a formação de ordem mais política, vinculado ao caráter associativo, 21,7% relacionam isso à formação geral, ao conhecimento, vinculada à informação, à visão de mundo, à construção de valores, ao estímulo à aprendizagem e 17,2% referiram-se à formação de ordem técnica, relacionado à empresa, à administração, à economia, ao que acontece na propriedade, na produção.
Escreve Boufleuer (1997, p. 22), “que toda e qualquer ação educativa constitui um tipo de interação humana”. Do mesmo modo pode-se afirmar que todo e qualquer tipo de poder constitui uma relação humana. Educação e poder acontecem na interação humana. Portanto, na interação humana de organização e funcionamento de uma cooperativa, produz-se educação e constrói-se poder. Isso acontece em função da “ordem social” que se busca construir. A organização e o funcionamento da cooperativa é uma “ordem social”, primeiramente, em relação ao grupo cooperativo, em relação aos seus integrantes que precisam estabelecer normas de comportamento, de interação, de orientação de suas ações individuais e coletivas. Mas, também, o empreendimento cooperativo é o meio de construção de uma “ordem social” maior, de relações de mercado mais amplas, que os seus atores querem constituir, em vista de necessidades e interesses.
Interpretando Habermas, Boufleuer (1997, p. 23) escreve que

para a viabilidade de uma ordem social, é necessário que se estabeleçam certos padrões de interação que permitam um entrelaçamento regular e estável de ações. Para que isso ocorra é necessário que as ações sejam coordenadas segundo regras, ou seja, que obedeçam a um mecanismo de coordenação.

Em relação à organização cooperativa, isso nos permite dizer que a educação para a cooperação obedece a um ‘poder de direcionamento’, a um mecanismo de coordenação das práticas educativas, proveniente do pacto associativo-cooperativo, celebrado pela vontade política dos sujeitos. A educação cumpre uma função construtora das condições necessárias à cooperação.
Em decorrência desse entendimento e de acordo com concepções habermasianos, nas práticas ou ações educativas e nas relações de poder, inerentes às organizações cooperativas, pode-se encontrar interações do tipo comunicativo ou do tipo estratégico que se constituem em seus mecanismos de coordenação. As interações comunicativas entre os cooperantes acontecem, predominantemente, no espaço associativo, quando discutem e decidem sobre a organização da cooperação e definem os objetivos a serem alcançados. As interações estratégicas ocorrem no espaço da instrumentalização co-operativa, quando da realização dos objetivos.
Na associação-cooperativa, esse “poder de direcionamento” estará embasado em uma interação comunicativa, isto é, em uma interação entre iguais, de um para o outro, viabilizando-se o pacto de direcionamento da organização. Teoricamente, de acordo com a legislação cooperativa, todos os associados têm os mesmos direitos e deveres, isto é, os mesmos poderes na organização e funcionamento da cooperativa4. Pelo menos, em termos legais essa igualdade está posta, podendo servir de base para as relações de poder no exercício das práticas cooperativas.
No pólo da organização cooperativa, isto é, na instrumentalização-cooperativa, o processo de poder é coordenado por um mecanismo de interação de tipo estratégico, isto é, por uma relação hierárquica de um sobre o outro, do tipo empresarial. Porém, em função da natureza da organização, esse pólo deve funcionar sob “controle de direcionamento” do poder político da associação-cooperativa, evitando-se a “politização” das funções burocráticas e técnicas em si. Por politização entende-se, aqui, uma atitude de supremacia, de mando, orientadora dos interesses e finalidades da organização e funcionamento da cooperativa.
A “politização” dos setores de apoio, segundo o conceito de organização e funcionamento de uma cooperativa, representaria uma ruptura da noção de empresa-cooperativa, onde as relações de poder devem obedecer a uma estrutura técnica, funcional, executiva, sob controle, em última instância, dos associados. Na organização e funcionamento de uma cooperativa existem aspectos associativos, políticos, e aspectos organizativos, técnicos, cuja dinâmica relacional se constitui em núcleo central diferenciador de sua gestão.
A gestão de uma cooperativa precisa considerar essas diferenças, os seus significados, que podem representar elementos de estabilização da aliança cooperativa. A compreensão da natureza da aliança de economias individualizadas é condição básica à educação para a cooperação.
Ao se buscar distinguir entre associação e organização, encontra-se um suporte teórico-conceitual, na senda do pensamento sociológico de Karl Mannheim. As noções de associação e organização, em Mannheim, permitem uma reflexão sobre essa dupla "natureza" de uma cooperativa: associação-cooperativa e empresa-cooperativa. Contribuem para entender o funcionamento de uma organização cooperativa, do que vai por dentro de uma prática de cooperação. São caminhos conceituais que ajudam na leitura e compreensão das questões de educação e de poder em organizações cooperativas.
Na associação-cooperativa estão as pessoas com seus desejos, seus interesses ou necessidades, seus sentimentos, suas paixões e vontades. Nesse espaço definem os seus objetivos, mas que “continuarão em presença” com os demais aspectos da vida dos associados, exigindo, constantemente, uma ação comunicativa, orientada pela racionalidade de suas opções.
Na empresa-cooperativa está a instrumentalização, está a estrutura, a estratégia, estão os mecanismos de realização dos interesses e objetivos que as levou a se associarem. A associação é o lugar dos acordos, dos debates, a organização é o lugar das regras, do contrato, da co-operação. Isso implica em diferentes relações de poder, em processos educativos.
Os sujeitos desenvolvem uma conduta racional em suas relações de identificação, uma conduta racional de associação, de cujo processo nascem formas de organização que instrumentalizam seus interesses e objetivos. Pela comunicação, no espaço da associação, organizam-se e estruturam seus instrumentos de ação co-operativa, desencadeando processos educativos e construindo relações de poder. Por isso, pode-se afirmar que organizações cooperativas se constituem a partir de dois pólos, o associativo e o co-operativo-instrumental, perpassados por processos de educação e poder. Na associação-cooperativa está a vontade política e na empresa-cooperativa está o poder da ação instrumental dessa vontade.

A racionalidade da cooperação na economia de mercado


Para Mannheim (1962, p. 299) associações "são conscientemente organizadas com uma finalidade definida, racional. Não compreendem todos os aspectos da vida de seus membros, e é possível ingressar nelas, ou deixá-las, livremente".
Na definição do seja uma organização cooperativa, além do aspecto associativo em si, temos o de organização instrumental consciente. Associar-se, racionalmente, significa fazer uma escolha, uma opção, de acordo com uma finalidade clara, consciente, obedecendo, portanto, ao princípio da livre adesão, em favor de uma organização com outros. É um ato racional, de luz, de clareza, dos que se associam, em favor de finalidades específicas: redução de custos, melhorias de preços, agregação de valor, ganhos de qualidade, de segurança, de competição, de poder nos espaços do mercado etc.
Mannheim afirma, embasado em diferentes abordagens sociológicas, que o termo racionalidade é usado em dois sentidos: o de substancial e o de funcional. A racionalidade substancial define um ato de pensamento, de conhecimento. A racionalidade substancial existe, segundo ele, quando um ato de pensamento revela "percepção inteligente das inter-relações dos acontecimentos de uma determinada situação" (Mannheim, 1962, p. 63). Como tal, pode-se interpretar esse ato de pensamento como fundamento de uma vontade política que se converte em ação na relação entre pessoas e que leva a escolhas, a opções, pela percepção inteligente das inter-relações dos acontecimentos, pelo esclarecimento de quem se associa. Esse conceito de racionalidade substancial pode ser empregado para definir e explicar a opção pela associação-cooperativa, por parte de quem percebe as vantagens da cooperação. Portanto, trata-se de uma idéia política, esclarecida, carregada de vontade, apontando finalidades, interesses.
O ato associativo é, assim, sob esse aspecto, um ato substancialmente racional, pois está fundado na percepção inteligente, no princípio da livre adesão5. Nesse caso, os associados estão conscientes, esclarecidos, com relação a sua opção. Quando não ocorre um ato dessa natureza, isto é, quando não existe um ato substancialmente racional de livre adesão à cooperação, uma opção esclarecida pela cooperação, o bom funcionamento de uma organização cooperativa, fundada em objetivos econômicos, pode ser prejudicado. Impulsos, desejos ou sentimentos, conscientes ou não, Mannheim denomina de “substancialmente irracionais”. Nesse caso, participar de um empreendimento cooperativo, fundado em impulsos, desejos ou sentimentos, seria uma irracionalidade.
No nosso entender, no caso do cooperativismo agrícola brasileiro, especialmente, das chamadas cooperativas de trigo e soja, além da presença e função do Estado em seu surgimento e desenvolvimento, grande número de produtores rurais tornaram-se associados não por uma percepção inteligente do caminho cooperativo, por uma opção de livre adesão. Chegaram ao cooperativismo pelo caminho das políticas de incentivo ao cooperativismo por parte do Governo, pelo caminho das políticas de incentivo à modernização agrícola, ou mesmo pela adesão às idéias cooperativistas como solução aos seus problemas econômicos, porém, carentes de informações e conhecimentos a respeito da complexidade da natureza de uma organização cooperativa.
Conseqüentemente, em muitos casos, passou a existir uma “cooperação dependente” dos incentivos governamentais, de falsas expectativas ou mesmo de irracionalidades, como desejos, esperanças, sentimentos. Naturalmente, nesse caso passou a existir o risco à estabilidade do empreendimento cooperativo por conta de uma lacuna na compreensão dos acontecimentos, isto é, na capacidade de decifrar os acontecimentos do contexto de inserção da cooperativa.
Certamente, não se pode generalizar a explicação, mas, em muitas circunstâncias concretas, não se pode desconhecer que a falta de compreensão do sentido e significado das políticas oficiais de incentivo à cooperativismo, pode ter prejudicado o desenvolvimento de algumas cooperativas.
É evidente que a estabilidade da cooperativa depende mais dos resultados gerados, das expectativas atendidas. Mas, caso não houver uma ação adequada para a superação da condição de “cooperação dependente”, pela percepção inteligente, pela compreensão do seu sentido e significado, pela construção de uma opção esclarecida, existe o risco de frustrações no quadro social. A dependência, na verdade, significa uma ausência, uma alienação da condição de associado racionalmente orientado e permite o risco de mau uso político ou operacional da cooperativa. A construção de uma opção esclarecida, racional, é função da educação para a cooperação que deve possibilitar o entendimento do sentido e dos significados da organização cooperativa.
Mannheim afirma que o termo racional não é usado em sociologia apenas para designar atos de pensamento ou conhecimento. O termo também é empregado no sentido funcional, de funcionamento de uma organização em direção a seus objetivos. O termo racional é usado no sentido de caracterizar "uma série de medidas organizadas de forma a levar a um objetivo previamente definido, recebendo todos os elementos dessa série de atos uma posição e um papel funcionais" (Mannheim,1962, p.63). O conceito é usado para caracterizar uma situação de organização funcional, na qual os comportamentos dos integrantes de uma organização são 'funcionalmente racionais', isto é, "cada ato tem um papel funcional na consecução do objetivo final" (Mannheim,1962, p.63). Refere-se à distribuição das funções e papéis dentro de uma organização, tendo como referência os seus objetivos. O campo da racionalidade funcional está mais na empresa-cooperativa.
No entanto, a percepção e a compreensão dessa racionalidade funcional, por parte dos associados, dirigentes ou não, é de fundamental importância para o desempenho e a estabilidade de uma cooperativa, pois a racionalidade funcional é condicionada pelos objetivos da organização. Uma organização cooperativa não pode negligenciar o objetivo, a razão de sua existência sob o risco de se desestabilizar. Objetivo e racionalidade funcional compõem uma equação cujo resultado é a estabilidade da cooperativa.
A qualificação do quadro social de uma cooperativa, em função dos comportamentos funcionalmente racionais, independentemente das posições na estrutura hierárquica da organização, exige um amplo trabalho de educação, de formação. Essa educação para a cooperação deve ser orientada pela racionalidade funcional da organização cooperativa.
Segundo Mannheim, associações são "grupos concretos de contornos definidos, compostas de membros que se reuniram para certas finalidades objetivas" (1962, p. 303). Esse conceito corresponde à noção de associação-cooperativa: um grupo concreto, definido e com finalidades objetivas. Nessa noção está implícita a afirmação de que cooperativas são espaços de poder. Como “grupos concretos” com “finalidades objetivas” procuram exercer poder, em direção aos seus objetivos, ao mesmo tempo em que influenciam o comportamento dos seus membros, de acordo com seus estatutos, regulamentos e normas de convivência ou de funcionamento, "deixando, não obstante, margem para uma variedade de decisões, para a multiplicidade de opiniões sobre a oportunidade de determinada política" (1962, p.303). A associação, pelo princípio da livre adesão, deve constituir-se em bases democráticas, abrigando a multiplicidade de opiniões para que se viabilize a participação política, condição essencial para sua estabilidade. A estabilidade de uma organização cooperativa depende de uma orientação estatutária e de normas de comportamento, produzidas no processo dialógico da associação-cooperativa. O direcionamento da cooperativa não elimina a possibilidade da democracia, da multiplicidade de opiniões.
Dois aspectos importantes com relação à associação-cooperativa merecem ser destacados, a partir do pensamento de Mannheim: existem finalidades definidas, objetivas para a associação, isto é, existe uma racionalidade funcional e existe espaço para a discussão, inclusive, com a liberdade de adesão, um dos princípios do cooperativismo. Assim, sob essa ótica, estão dadas e fundadas as condições da participação política e da participação econômica dos associados, base para a estabilidade do empreendimento cooperativo. Deve a participação política ser uma ação coordenada com referência aos objetivos definidos, isto é, funcionalmente racional.
Segundo o autor, na associação o comportamento dos seus membros é “racionalizado”, mas não “racionalmente organizado”, isto é, a associação se dá em função de objetivos definidos, mas não se constitui na organização. Observa Mannheim (1962, p.303) que os grupos associativos "são enformados por um espírito que leva à regulamentação racional do comportamento". No caso de uma associação-cooperativa, isto é, com vistas à instrumentalização cooperativa, esse é o espírito cooperativo6. O comportamento é orientado pelos objetivos da associação, mas não está regulamentado, organizado, em função desses objetivos. Existe um espírito que leva a sua organização racional, à regulamentação. É função da educação para a cooperação desenvolver esse espírito cooperativo.
Para Mannheim (1962, p.303), "se a regulamentação for mais além, se o comportamento dos indivíduos que participam dessa ação coordenada for cuidadosamente calculado e predeterminado, e sua eficiência puder ser estabelecida em termos mais ou menos quantitativos", quando esse comportamento é 'racionalmente organizado', então "a associação se transforma em organização", isto é, no caso da organização cooperativa, a associação-cooperativa se instrumentaliza, estruturando sua empresa-cooperativa, o seu poder operacional. No processo da organização ocorre a regulamentação do comportamento, em função dos objetivos estabelecidos na associação.
Assim, transpondo esse raciocínio à organização cooperativa, a participação política tem seu espaço privilegiado na associação-cooperativa. A participação econômica na empresa-cooperativa é regulamentada, racionalmente organizada, em função dos objetivos estabelecidos. O comportamento co-operativo dos associados na empresa-cooperativa necessita ser racionalmente organizado, através de normas, regras, contratos. Através da participação econômica acontece, efetivamente, a co-operação. Pela participação política os associados buscam garantir o poder de controle sobre a co-operação. Esse controle é importante para a transparência das práticas de cooperação, da qual decorre a confiança e a fidelidade dos associados. Desses aspectos específicos de organização decorrem conseqüências e desafios particulares à administração de um empreendimento cooperativo. Empreendimentos cooperativos são estruturas de comportamento racionalizado e organizado, isto é, são empresas-cooperativas, sem demérito à dinâmica da inteligência emocional do campo cooperativo, presente na associação-cooperativa. A prática do poder de gestão é condicionada por aspectos que exercem influência no sentido da estabilidade da organização cooperativa.




O lugar do poder da administração

De acordo com Mannheim (1962, p.303) nas estruturas instituições de "comportamento racionalizado e organizado", as atividades são padronizadas e "não somente seus processos básicos, mas seus objetivos finais e os meios usados para atingi-los, foram calculados antecipadamente e são, nesse sentido, organizados". No caso da empresa-cooperativa, de comportamento racionalizado e organizado, isso traduz o espaço da gestão. A administração "não pode ser criada ao acaso, ela implica num objetivo pré-definido” (Mannheim,1962, p.304). Os objetivos precisam ser definidos na associação-cooperativa que constitui o campo político da organização, isto é, as atividades tecnoburocráticas são precedidas pelas atividades políticas. Mannheim (1962, p.304) observa que, em se tratando de assuntos sociais, "a administração só pode ser imposta quando as atividades deixam de ser políticas", isto é, a administração tecnoburocrática de uma cooperativa deve ser despolitizada. Essa visão contempla a noção técnica da administração de cooperativas, sob controle político dos associados.
Identificar nas formas de organização e nas práticas administrativas de uma cooperativa um controle social, na verdade, permite identificar diferentes relações ou tipos de poder em organizações cooperativas. O poder político dos associados, o poder técnico de gestão da burocracia, o poder de influência das cooperativas, no contexto da realidade social em que atuam.
Daí a importância da necessidade do debate na associação-cooperativa sobre a administração, isto é, sobre as necessidades, os interesses, os objetivos da organização que, uma vez definidos, passam à esfera técnica, operacional, onde devem ser operacionalizadas as decisões dos associados. Entende-se a administração como atividade técnica e operacional, embora condicionada e direcionada pelo poder político. O poder político tem seu fundamento nas necessidades, interesses e objetivos da associação-cooperativa. O poder da burocracia deve estar submetido a esse poder político.
Pelo caminho do pensamento de Mannheim, pode-se afirmar que na associação-cooperativa estão as atividades políticas, "o tipo de ação grupal em defesa de opiniões e valores finais", enquanto que na empresa-cooperativa está a administração que "não luta e não determina finalidades, mas apenas constitui um meio de colocá-las em prática" (Mannheim, 1962, p.304). Desse modo, na organização cooperativa, a associação, como expressão política do ato cooperativo, submete a empresa, o instrumento administrativo, aos seus objetivos e finalidades centrais. Submete a burocracia, o espaço técnico da administração. Ou, em outras palavras, na associação-cooperativa está a vontade política, o controle da gestão, e na empresa-cooperativa está a função de seu cumprimento, estão os mecanismos operacionais técnicos da instrumentalização do ato cooperativo.
Na empresa-cooperativa as atribuições e funções técnicas administrativas são predeterminadas, politicamente, no espaço da associação-cooperativa. Os comportamentos dos associados, a suas relações co-operativas, determinadas pelos objetivos e finalidades centrais da associação, no espaço da empresa-cooperativa são predeterminados e coordenados, através de estatutos, regulamentos e normas, debatidos e acordados na associação-cooperativa.
Finalmente, ainda convém observar o que afirma Mannheim com relação ao poder de decisão nas organizações. Segundo ele (1962, p. 304), "os que controlam a política (...) dirigem a organização". Os associados devem exercer o controle político nas organizações cooperativas, devem dirigir, dar o direcionamento para as ações administrativas. Dirigir não é a mesma coisa como administrar. Dirigir é dar a direção; é direcionar o sentido da organização; é dar o sentido e o significado da gestão aos que se ocupam das suas funções tecnoburocráticas. A ocupação e o desempenho dessas funções pode-se definir como sendo a ação do gerenciamento, da administração. O conceito de direção contém uma dimensão mais política, enquanto o de administração carrega um sentido mais técnico.
Assim, a ação estratégica deve estar submetida à ação comunicativa. Levando-se esse raciocínio para dentro da organização cooperativa, conseqüentemente, se impõe a importância da esfera da associação-cooperativa. Para que a organização cooperativa seja, de fato, a expressão dos interesses e objetivos dos associados, é preciso que sejam fixados os mecanismos de seu controle político, através de uma estrutura de poder que viabilize a participação política, a racionalidade e a transparência da gestão. Esse aspecto recoloca a importância do processo educativo, de qualificação, na cooperativa. Em razão da natureza da organização cooperativa - associação e empresa - a educação, enquanto formadora e qualificadora de seus integrantes, se constitui em um dos aspectos fundantes de sua estrutura de poder, de seu controle político, de sua gestão. Mannheim, ao se referir às ações políticas e administrativas em grupos organizados, enfatiza a necessidade de formação e qualificação de seus integrantes. Afirma Mannheim (1962, p.304) que é preciso “preparar dois tipos de homem. Um, capaz de dirigir-lhes a política, deve ter iniciativa política no sentido amplo da expressão; o outro deve ser capaz de realizar essa política, exatamente, com eficiência indiscutível".
Ao se transpor esse entendimento de Mannheim para uma organização cooperativa, especialmente para as cooperativas agrícolas tradicionais, nos deparamos com os dois principais grupos humanos, presentes nessa organização, o dos associados, incluídos nesse grupo os seus dirigentes eleitos, e o do corpo técnico-burocrático, isto é, seus funcionários administrativos. Esses dois grupos compõem, respectivamente, o poder político, um pode de instituição, e o poder tecnoburocrático, um poder atribuído, um poder instrumental de gestão técnica. Ou seja, os associados compõem o poder da organização, da direção, e o corpo técnico-administrativo faz uso do poder instrumental para a administração da ação cooperativa, a serviço da realização dos seus objetivos. Por isso, a formação e a qualificação são tarefas ou funções centrais da educação em organizações cooperativas. Certamente, o sucesso do empreendimento cooperativo guarda relação direta com a formação e qualificação dos funcionários, dirigentes e associados.
Na relação dinâmica desses dois pólos de poder, em suas práticas, podem vir a existir conflitos de poder. Esses conflitos não são de todo negativos. Podem constituir-se em energias de qualificação da organização e do funcionamento de uma cooperativa. No entanto, os seus aspectos negativos podem ser evitados, amenizados, ou superados pela comunicação, pela formação e qualificação de seus componentes. Volta-se, assim, à importância da comunicação e da educação em cooperativas como um mecanismo de superação do paradigma clássico de organizações burocráticas. Pela comunicação e educação se constrói o modelo de gestão participativa, centrado na valorização do capital social que os associados e os funcionários podem representar em organizações cooperativas.
Em razão da natureza da organização cooperativa - associação e empresa - a educação, como formadora e qualificadora de seus integrantes, se constitui em um dos aspectos fundantes de sua estrutura de poder, de seu controle político, de sua gestão. Por isso, comunicação e educação, em organizações cooperativas, não devem envolver apenas os associados, mas também aqueles que venham somar-se a elas pelo seu trabalho, pelos serviços técnicos ou gerais, necessários ao empreendimento cooperativo.
Enfim, de acordo com Mannheim (1962, p. 305), "a organização e a administração são formas de controle social tipicamente modernas". Identificar nas formas de organização e nas práticas administrativas de uma cooperativa um controle social, na verdade, permite identificar diferentes relações de poder em organizações cooperativas. Trata-se do poder da burocracia, localizado na operacionalidade, no funcionamento da empresa-cooperativa, isto é, na administração, e do poder da influência, em si, das organizações cooperativas, no contexto da realidade social em que atuam.

Relações entre poder político e poder tecnoburocrático


Quando economias familiares, como as de agricultores, se associam e se instrumentalizam para cooperar entre si, em função de suas dificuldades e interesses, essa organização produz um grande volume de atividades e serviços especializados, fora de suas unidades familiares de trabalho. Esse trabalho vai além daquele que já acontece nas unidades econômicas associadas. Nem sempre os associados conseguiriam, pessoalmente, dar conta desse trabalho, mesmo que quisessem, sob pena de reduzirem a atenção às exigências de suas economias. A organização dessas atividades depende do trabalho e da incorporação do serviço de terceiros. Isso exige uma estrutura, uma ordem, com normas, funções e procedimentos, que se pode chamar de burocracia, constituindo a base para um novo poder, o poder da burocracia. As ações estratégicas da gestão dessa organização e de suas atividades devem estar submetidas à ação comunicativa dos associados entre si. Para que a organização cooperativa seja, de fato, a expressão dos interesses e objetivos dos associados, é preciso que essa burocracia esteja, de fato, sob seu controle. É preciso que sejam fixados os mecanismos de seu controle político, através de uma estrutura de poder que viabilize a participação política dos associados, a racionalidade e a transparência da gestão.
Moacir Gadotti (1998, p. 24), ao tratar das relações de poder inerentes aos processos de educação, faz referência ao poder dos tecnoburocratas que “concebem as coisas e os fenômenos estaticamente, como funcionam hoje; estabelecem, por isso, normas fixas e abstratas, incrementam a massificação e a uniformização, reduzindo as possibilidades de participação efetiva dos indivíduos nas decisões”. Existem os conflitos de poder nas organizações cooperativas que têm seu núcleo na relação de seus dois pólos.
O autor, no entanto, não condena o progresso técnico e o planejamento, mas alerta que a tecnoburocracia tende a controlar a organização do processo educativo, da escola, supervalorizando o planejamento e o conhecimento técnico-organizacional, a hierarquia, as estruturas, impondo suas crenças e valores, fazendo predominar a razão técnica em desfavor da criatividade, da participação política dos indivíduos.
Por isso, o quadro técnico burocrático, especialmente, necessita de oportunidades de educação e qualificação para o desempenho de suas ações no processo de administração de uma cooperativa. Necessita do aprofundamento da compreensão da natureza e do sentido de uma organização cooperativa. Essa formação poderá, não só, amenizar os conflitos entre a participação e a burocracia, mas qualificar o novo paradigma de organização em afirmação no contexto das transformações da sociedade contemporânea: o paradigma centrado na participação.
Porém, com relação à burocracia, à administração burocrática e seu significado, em organizações cooperativas, é importante ver também o que Lapassade diz sobre o fenômeno burocrático. Embora o diga em outro contexto, diferente que o de uma organização cooperativa, a sua observação pode ser transposta para o ambiente de uma cooperativa, para o momento de valorização da participação, de revisão do paradigma da operacionalidade organizacional.
Afirma Lapassade (1989, p. 201) que

o que há de novo no modo de produção e de domínio burocrático é, se podemos dizer, o seu “altruísmo”, para usar um termo moral, ou ainda o seu caráter “social”, ou, melhor ainda, o seu caráter “democrático”.(...)
A burocracia, ao contrário, não apenas se apresenta como a serviço da coletividade, como a serve efetiva e realmente. (...) O burocrata (...) trabalha, sacrifica-se, administra, orienta, planifica, “serve”. (...)
O que é preciso reprovar na burocracia e nos burocratas é, antes de tudo, o fato de que alienam fundamentalmente os seres humanos, retirando-lhes o poder de decisão, a iniciativa, a responsabilidade de seus atos, a comunicação.


O que Lapassade diz ser preciso reprovar na burocracia e nos burocratas constitui-se em um risco permanente na ação de gestão de cooperativas. Esse risco, de algum modo está na lógica do processo burocrático e na ação comportamental dos burocratas. Na organização burocrática há um determinismo implícito; está implícita a superioridade da técnica, da razão técnica, instrumental, da interação de tipo estratégico. Na organização cooperativa essa ação tem seu sentido na ação da empresa-cooperativa e, de algum modo, pode-se dizer que está em contradição com as ações no espaço da associação-cooperativa. No cenário da organização e funcionamento de uma cooperativa, pode a questão da participação política do associado aparecer como contraposição ao processo burocrático, gerando conflitos.
Max Weber desenvolveu o conceito de organização burocrática, diante da necessidade de superação das relações antigas de dependência pessoal, de vassalagem, de nepotismo, presentes em organizações de origem feudal e pré-capitalista. Apontou a necessidade serem substituídas pelas relações de dependência formal, legal, hierárquica, funcional, superando-se a visão metafísica pela visão da certeza, do concreto.
Com a crise da visão da certeza, com o questionamento do próprio capitalismo, diante das dificuldades ambientais e sociais de produção e distribuição de bens e mercadorias, diante dos limites do meio-ambiente, da competição, da concentração, da superprodução, da sustentabilidade política e da segurança do sistema, nasce o questionamento daquilo que foi o instrumento da organização da produção capitalista, a burocracia. A burocracia que marginalizou o indivíduo, a sua criatividade, a sua subjetividade, a sua emotividade, cede lugar, mesmo resistindo, à participação, a um novo paradigma, menos determinista.
A construção ou a regeneração da democracia, como expressão da prevalência da política sobre a economia, através de uma participação organizada e efetiva, é um dos maiores desafios dos tempos atuais.
A participação aparece como a emergência de um novo modelo de organização, de um novo paradigma de organização, centrado na valorização da criatividade, na valorização do capital humano. A participação como um processo de distribuição de poder implica em profundas mudanças na concepção e funcionamento das organizações, tanto do ponto de vista da reorganização do poder nas organizações, quanto da reorganização das estruturas das organizações.
O novo paradigma precisa descobrir e desenvolver os seus instrumentos de gestão. O discurso da participação se legitima na crise do processo burocrático, da organização burocrática. Na organização participativa, criativa, está presente a ação comunicativa, participativa. O novo modelo se assenta no princípio da simplicidade organizacional, na descentralização do poder e da competência, se assenta no princípio de comando pela cultura, pelos valores (Silva e Costa, 2001).
Na organização burocrática, de maneira simplificada, pode-se dizer que está implícita a idéia de que, em seu funcionamento, os aspectos técnicos são mais importantes que a liberdade da criatividade humana. Essa visão, hoje, não tem mais a mesma força do passado. Verifica-se uma passagem de uma visão mecânica, determinista, burocrática, para uma visão de organização criativa e participativa, cooperativa e social. Afirma-se uma nova visão de organização, embasada na valorização da criatividade humana, na participação. Isso implica profundas mudanças na concepção, estruturação e funcionamento das organizações. Implica em resgatar o capital humano, o capital social, em todas as suas dimensões, a favor de uma organização flexível, participativa e criativa. Como conseqüência disso, é preciso desenvolver novas formas de gestão, assentadas na descentralização, na simplificação, na valorização da criatividade humana, na comunicação. As cooperativas, certamente, estão entre as organizações que oferecem o maior potencial de superação do paradigma burocrático em favor desse novo modelo, centrado na valorização da criatividade dos indivíduos, através da participação. Nesse sentido, as cooperativas podem também se constituir em importantes espaços do desenvolvimento de uma sociedade.
As funções tecnoburocráticas em uma cooperativa com o perfil do novo paradigma de organização – centrado na criatividade, na valorização do capital humano - devem estar submissas aos interesses e necessidades daqueles que decidem sobre os seus rumos, sua direção. Estamos falando de organizações cooperativas que mantêm quadros técnico-administrativos contratados, distintos de seu quadro associativo. Porém, em cooperativas que não tenham esses quadros distintos, isso também é válido. Em tais organizações também pode se instaurar o poder do antigo modelo burocrático, através do poder de grupo, a partir da divisão social do trabalho. Talvez esse seja um dos maiores dilemas das organizações desse gênero.
De acordo com Lapassade (1989, p. 203), porém, o poder da burocracia é "um poder que consiste em 'fazer trabalhar', em dirigir, em orientar, em utilizar informações, em tomar decisões, em planificar". De acordo com o autor, esse poder supõe a aceitação pela coletividade. No caso de uma cooperativa, supõe a aprovação dos associados, isto é, essa coletividade é a associação-cooperativa. No espaço da associação deve ocorrer a discussão, a tomada de decisão sobre o poder burocrático, suas funções e atribuições. Esse é o caminho que pode desviar dos conflitos ou da contradição, inerentes ao processo político e operacional da gestão de uma organização cooperativa.
Segundo Lapassade (1989, p. 205),

é evidente que essas decisões visam a permitir as trocas, a garantir o funcionamento, a programar, a planejar, a servir em princípio à coletividade. No entanto, o único objetivo explicitamente almejado é o crescimento material das riquezas (realizado ou não) e não o desenvolvimento psicológico dos indivíduos. Esse crescimento material, desde que se realize (...) termina, na realidade, por aumentar a massa dos bens (...).

O poder de decisão da burocracia, no caso de uma cooperativa, deve estar relacionado à operacionalidade, à obtenção de resultados. Porém, o controle pela coletividade deve ter o sentido de impedir que aumento da massa dos bens não signifique apenas o aumento do patrimônio. Isso nem sempre significa uma melhora da economia dos associados, mas pode ser argumento e base, simplesmente, para a melhora salarial dos burocratas, por exemplo, ou para ampliar o seu espaço de poder.
Afirma Lapassade (1989, p.205) que
o burocrata que visa não apenas a administrar mas também a aumentar os instrumentos de produção, a provocar novos investimentos, a prever planos a longo prazo, não visa apenas a aumentar as possibilidades de trabalho, mas sobretudo a criar objetivos novos sobre os quais exercerá a sua administração; ele aumenta, portanto, em realidade, o seu poder, além de aumentar a sua reputação.

Lapassade, na verdade, fala de uma autocriação de poder, em favor do burocrata, do técnico, que poderá ser usado para negociar vantagens ou ganhos salariais. De acordo com Lapassade (1989, p. 206) o fenômeno burocrático "é uma forma de domínio sui generis. Ele não aparece como uma forma de parasitismo (...), mas, ao contrário, como o motor, o núcleo central, o cérebro da sociedade", fazendo-se útil, necessário e essencial. Por esses espaços e mecanismos a burocracia constrói e estabelece o seu poder, inclusive o de se recompensar.
No entanto, às vezes, em organizações cooperativas, o poder do burocrata se baseia mais na dificuldade dos associados em tomar decisões, em ter acesso à informação ou saber usá-la, em ter a qualificação adequada e exigida para operar a organização complexa da empresa-cooperativa. Por isso, torna-se necessária e é fundamental em organizações cooperativas a atividade de educação, de formação, de qualificação técnica, a informação, a transparência das operações de gestão, a participação, a democracia. Desses aspectos decorre, não só, mas também, a estabilidade da organização cooperativa. A satisfação dos associados não depende apenas de fatores materiais, mas também de aspectos psicológicos e políticos, inerentes à associação-cooperativa, à participação política, que podem constituir-se em vetores de força para equilibrar as relações de poder entre os mecanismos da burocracia e as necessidades e os interesses dos associados. A promoção desse equilíbrio é tarefa central dos dirigentes eleitos. Cabe aos dirigentes promover as relações de comunicação, de participação, entre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa.

O poder que vem do mercado


Além das influências e controles dos grupos locais sobre o comportamento de seus integrantes, afirma Mannheim (1962, p. 305), que "há controles sociais que se baseiam na interdependência dos atos humanos, sem se centralizarem em grupos, comunidades ou associações concretas. Isso significa que nossos atos podem ser controlados pelos atos de outros, mesmo que não sejam de membros de um grupo definido." Existem atos de controle externo à organização cooperativa. Esses atos de controle podem partir do contexto cultural, político ou econômico, de inserção social da organização cooperativa ou de seus associados. Na condição de membros da sociedade, de uma comunidade, estes podem ser influenciados, controlados, pela interdependência de relações sociais.
Segundo Mannheim (1962, p. 305 e 306), esse controle acontece através de uma categoria sociológica que denomina de estrutura de campo - conhecido na ciência física como campo magnético7 - e que se situa "entre os grupos concretos orgânicos e as grandes organizações". No caso de uma cooperativa, essa estrutura se situa no campo de relação da organização com o meio-ambiente maior, especialmente, nas suas relações com o mercado, onde estão as grandes organizações. Essas grandes organizações ou estruturas não precisam ser apenas as empresas, podem também ser as estruturas de pensamento, de valores, de cultura, de interesses, de política. São estruturas de controle, de poder, que se manifestam pela propaganda, pela educação etc. O que importa é observar que temos, assim, a noção de uma estrutura de campo entre dois pólos, a organização cooperativa e o mercado.
O autor identifica no mundo do comércio - intercâmbio econômico, transporte, viagens comerciais, correspondência, escritas e especulação - uma estrutura de campo. Por meio dessa estrutura de campo é exercida influência, controle, poder, sobre os indivíduos, sobre os grupos concretos organizados, isto é, sobre a organização cooperativa e também sobre seus associados, individualmente. Do contexto de inserção no mercado, brota uma influência sobre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa.
Diz Mannheim (1962, p. 306 e 307) que

a pressão existente no campo é transmitida pelas atividades interdependentes dos indivíduos (...). Sempre que os conflitos e a concorrência se fizerem sentir com todo o ímpeto, e os indivíduos tiverem de fazer suas adaptações, sempre que é impossível prever a tendência dos acontecimentos, as leis que governam as ondas magnéticas da estrutura de campo têm mais efeito sobre a natureza humana do que o costume tradicional ou a organização racional.

Os associados passam a ser orientados e articulados uns aos outros pelos sistemas de valores externos do mercado e que os pressionam mais que os seus valores ou o poder de sua cultura.
Em uma cooperativa, isso significa que, através das atividades dos associados, lhes é transmitido um poder de controle que vem de fora e que pode ser mais forte que o seu poder de organização associativa. Esse poder maior está ancorado na concorrência que se estabelece entre as economias individuais dos próprios associados, na tentativa de sobrevivência pela disputa, nos espaços do mercado.
O mercado pressiona os associados no sentido da melhora ou do aumento da produção de suas economias individuais, tornando-os, na verdade, mais competitivos e concorrenciais, inclusive, entre eles. Em conseqüência, o mercado pode ter mais efeito sobre eles que os princípios associativos ou a solidariedade tradicional. Embora se associem contra pressões do mercado, as forças do mercado se impõem à organização. Passa a ser aceita a idéia de que quem não puder acompanhá-las deve deixar o espaço aos que o conseguem fazer8. Corre-se o risco de ver sucumbir, assim, a solidariedade tradicional dos associados e a sua própria associação, diante do poder maior que lhes vem da estrutura de campo do mercado. Pode-se estabelecer uma relação de poder de competição entre os associados, a partir de fora, da estrutura de campo.
Entre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa, a partir das relações de mercado, funciona um espaço de poder, isto é, desenvolvem-se relações econômicas e políticas, de influência sobre o comportamento dos associados. A estrutura de campo do mercado exerce uma pressão sobre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa. A estrutura de campo, isto é, as forças presentes nas relações de mercado, influenciam o comportamento, condicionam a vida dos associados. Essa estrutura exerce um controle, um poder sobre eles, através de diferentes mecanismos: pela imposição de padronização dos seus produtos, pelas tecnologias de produção, inclusive, pela imposição de horários e ritmos de trabalho9.
A cooperativa representa, como empresa, a instrumentalização de defesa, racionalmente organizada, dos interesses e objetivos da associação-cooperativa. Porém, pela via de acesso ao mercado, ao campo de estrutura, ela também impõe, paradoxalmente, um comportamento racionalizado e organizado, pela assistência técnica, pela informação, pela padronização, vinculada aos interesses externos. As forças externas são maiores e se convertem, assim, inclusive, em desejos, interesses e objetivos dos associados.
Por sua vez, também pode ocorrer, no interior da associação-cooperativa, uma reação a essas forças, isto é, de construção de poder político, de tal forma que a estrutura de campo acaba se constituindo, nesse sentido, um mecanismo de estímulo à nova organização de poder. Nessa interação de forças, desenvolvem-se adaptações e reações que implicam em processos de educação e aprendizagens, qualificando os associados em termos políticos e técnicos.
Afirma Mannheim (1962, p. 307) que, "sob a influência segmentária dessas estruturas de campo, desenvolvem-se novos traços de caráter do homem econômico que diferem dos ideais de sua comunidade orgânica".
Sob essa influência, alteram-se as noções ideais de organização cooperativa, ressocializando, reeducando os seus membros associados, em função do mercado. Elaboram eles novas aprendizagens. Na estrutura de campo se estabelece uma pressão, um controle sobre a cooperativa, de sua natureza associativa e empresarial, sobre os seus integrantes. Essa pressão é transmitida através das atividades interdependentes dos sócios, em razão do ato co-operativo, dos seus interesses e compromissos mútuos. Isso se torna perceptível, concretamente, pelas exigências de padronização e qualidade dos produtos dos associados, em caso de agricultores. O mercado lhes dita as normas de procedimento. Eles se controlam, em última instância, frente a isso.
Nas relações de mercado fluem também as normas da cooperação e que devem ser assumidas por todos os associados. Constitui o mercado, dessa forma, um mecanismo de comunicação entre os cooperantes pelo qual fluem as relações de poder entre os próprios associados. Abre-se, assim, pelo mercado, uma oportunidade de aprofundar as relações cooperativas entre eles. É da natureza desse processo e de suas possibilidades, como ambiente cognitivo, que decorre a importância da democracia, da participação, da transparência, como princípios de funcionamento de organizações cooperativas.
O diálogo, a interlocução, o debate, entre os associados, são a base do processo educativo e de aprendizagem, que se estrutura nas organizações cooperativas. A comunicação se constitui como uma possibilidade real de poder para os associados, frente ao mercado. Como tal, a comunicação é elemento essencial da razão cooperativa. A comunicação é um espaço de poder e um campo de educação, do qual depende o sucesso do empreendimento cooperativo, de sua estabilidade.
A estrutura de campo do mercado, em relação a uma organização cooperativa, exerce uma pressão sobre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa. É um espaço de poder e um campo de educação, do qual depende o sucesso do empreendimento cooperativo, de sua estabilidade. A qualidade do produto e a padronização, reclamada pela via das relações comerciais, exercem pressão sobre os produtores, obrigando-os ou levando-os a mudanças e melhorias em seus processos produtivos.
Pelas relações de mercado, isto é, pela pressão das suas exigências, no espaço cooperativo, através da comunicação, também pode ser influenciada a gestão dos processos de produção em geral e, de modo específico, outros aspectos mais, como a ecologia, o meio-ambiente natural, produzindo-se novos comportamentos, novos processos de trabalho. A qualidade do produto e a padronização, reclamada pela via das relações comerciais, exercem pressão sobre os produtores, obrigando-os ou levando-os a mudanças e melhorias em seus processos produtivos. Novos comportamentos de trabalho ou de relações de trabalho, podem ser observados a partir da pressão exercida pela estrutura de campo, materializada pelas relações comerciais. O consumidor ou o comércio, como mecanismo de relações, exerce controle, poder, pela relação de compra e venda. Os produtores precisam aceitar esse controle, em razão de seus próprios interesses, fundantes da cooperação. Assim, o poder de controle se constrói também na relação comercial. O produtor se orienta por essa relação de poder, de controle de qualidade, para se qualificar tecnicamente.
Nas relações de mercado podem também fluir princípios éticos, que se pode definir como sendo de cooperação: uma cooperação com relação ao outro-cooperado e ao outro-consumidor. Essa é uma questão que começa a ser reconhecida, hoje em dia, como sendo um desafio à formação da consciência de quem produz e de quem consome. É um novo espaço de educação que se estrutura nas relações de mercado. Nesse espaço se funda a lei de proteção ao consumidor, inclusive. O empreendimento cooperativo pode se constituir em um campo privilegiado de educação desse processo de formação, construído nas relações internas de cooperação, nas relações com o outro-cooperado, nas relações de interdependência ou integração entre as cooperativas, no caso de redes de cooperação, ou nas relações com o outro-consumidor.
De acordo com Karl Manheim (1962, p. 288) "o principal objetivo da educação é habitualmente conseguir uma conformidade social básica". Essa não precisa ser, necessariamente, uma função negativa, no sentido do enrijecimento das estruturas sociais, impedindo a superação das contradições a ela inerentes, impedindo a dinâmica de seu aperfeiçoamento democrático. A educação também trata dos padrões de comportamento dos indivíduos na sociedade. A maior discussão e atenção crítica devem estar voltadas ao tipo de sociedade que se quer. A educação decorre desse processo; ela vai no sentido da afirmação das suas conquistas.
A educação para a conformidade social básica e a regulamentação da associação-cooperativa é traduzida por um comportamento racionalizado coletivo. Para Mannheim (1962, p. 301) "o comportamento racionalizado coletivo começa abolindo os elementos simbólicos tradicionais, em favor dos que são essenciais à função do órgão em questão, julgado exclusivamente pelas necessidades da situação presente". Isso exige que os integrantes da associação dialoguem a respeito do seu projeto comum para que se construa um entendimento coletivo, evitando que valores, hábitos ou interesses não adequados à nova organização grupal possam gerar instabilidade. Da racionalidade comunicativa nasce a importância da educação, do diálogo, da interação comunicativa, da transparência do projeto para os seus próprios membros integrantes. São condições de estabilidade da organização cooperativa. A educação é, assim, ao mesmo tempo, uma exigência da organização cooperativa e uma conseqüência. A construção de poder, por sua vez, é um objetivo fundamental da organização cooperativa, move o processo associativo do projeto cooperativo.
Pelas atividades de educação é produzida uma nova “ordem social” entre os membros da associação, embasada em novos valores e interesses, relacionada com os objetivos da associação. São produzidas as condições para um trabalho coletivo, de cooperação. Assume a educação para a cooperação uma função de viabilização de uma “ordem social” que regulamenta, acima de tudo, a associação-cooperativa.
Pode-se falar, nesse sentido, de um processo de transformação social e cultural do grupo de associados. Essa “transformação social-cultural” também causa seus efeitos sobre os grupos familiares ou comunidades às quais pertencem os membros da associação-cooperativa. Diz Mannheim (1962, p. 301) que "freqüentemente não podemos transformar a ordem social sem modificar os seres humanos e suas convenções". Pois, é por essa porta das modificações dos associados que entra a influência da cooperativa sobre as comunidades e seus membros, fazendo brotar uma certa identidade cultural e comportamentos comuns a todos, mesmo que não sejam membros diretos da cooperativa. Hoje, de certo modo reconhecendo esse fenômeno sociocultural, o movimento cooperativo internacional já incorporou a relação com a comunidade em seus princípios de organização e funcionamento de uma cooperativa, como princípio de sua responsabilidade social, da preocupação com a comunidade. A organização cooperativa contém sentidos e significados mais amplos, para além dos interesses de seus associados. Nesse espaço da preocupação com a comunidade estabelecem-se também relações de poder e processos de educação.
Educação e poder são dois fenômenos sociais que em suas práticas se entrecruzam. Mais que isso, são fenômenos que se fazem presentes, mutuamente, um no outro, dificultando, sob certos aspectos, a sua “separação”. Isto é, como fenômenos sociais um contém o outro dentro de si, como resultado de suas práticas. E, como tal, de acordo com Paulo Freire (2001, p. 23), não existe “uma educação neutra, que se diga a serviço da humanidade, (...) uma prática política esvaziada de significação educativa”.Isto é, toda educação, voltada à construção do social contém uma intenção política, em sentido pedagógico amplo, e, como tal, também é poder. Ou melhor, a educação é a construção de poder com base no conhecimento.
Afirma Paulo Freire (2001, p. 23 e 24) que

do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político. Isto não significa, porém, que a natureza política do processo educativo e o caráter educativo do ato político esgotem a compreensão daquele processo e deste ato.

A organização cooperativa como espaço político de relações sociais e econômicas, voltado à construção de poder, especialmente, em suas práticas econômicas, expressa um caráter educativo. Os associados, construindo poder para a busca de soluções práticas, relativos aos seus problemas, induzem a um processo de aprendizagem. Nesse processo manipulam informações, aprendem e constroem conhecimentos, o se que traduz em educação. Educam-se, assim, nas relações sociais e econômicas de cooperação e de competição. Essa é uma das funções da educação cooperativa: racionalizar e organizar o comportamento dos associados, dentro de um 'espírito cooperativo', em função de uma “ordem social”, contida na associação-cooperativa.
Nesse processo educativo também se desenvolve poder político e de tal modo que as ações do processo educativo se entrecruzam ou se identificam, ou mesmo se confundem, com a questão da construção de poder político. Educar-se para o poder político com a finalidade de construir uma nova “ordem social” é uma etapa fundamental do processo de organização cooperativa. Organizar uma cooperativa é buscar construir poder, especialmente, nas relações econômicas com o mercado. No entanto, no interior da cooperativa existem e se desenvolvem outras relações de poder.
Os associados reclamam o controle, expressam o conflito com a burocracia, com a administração, quando não sentem a cooperativa como expressão de seus interesses e objetivos, quando não conseguem participar. Buscam afirmar poder no interior da cooperativa com relação a sua estrutura de organização e funcionamento.
Em uma pesquisa realizada, junto aos associados da COTRIJUÍ, em 2000, a respeito da relação entre os associados e a administração, foi possível obter alguns dados interessantes com relação ao fenômeno do poder. Na opinião dos entrevistados, quando perguntados se o associado consegue influenciar a forma de administração da cooperativa, 62,8% responderam afirmativamente e 14,1% responderam que em parte essa influência é possível. Apenas 23,1% responderam que não conseguem influenciar a administração. Essa influência para 51,2% dos entrevistados é possível pela participação política, isto é, pelo diálogo, através de reuniões e outras formas de comunicação. Apenas 5,7% indicaram a participação econômica como a forma de influência sobre a administração, enquanto 16,5% indicaram a estrutura de representação como o mecanismo de influência. Perguntados se deveriam ser consultados antes de decisões importantes, 90,6% responderam que sim e 8,8% disseram que em parte sim, isto é, nem sempre. Isso significa que 99,4% dos associados desejam acompanhar as grandes decisões da cooperativa. A razão dessa comunicação entre administração e quadro social se deve ao clima de confiança que pode gerar (33,3%), ao fato de serem os associados os donos (22,4%), à necessidade de comunicação (12,8%) ou à relação de dependência entre associado e cooperativa (5,1%). Caso não forem consultados 59,1% dos entrevistados acatam e reagem, 24,2% cumprem as decisões e 4,7% reclamam.
Os dados revelam a importância da comunicação direta entre associados e administração, bem como uma relação de dependência do associado com relação à importância econômica da cooperativa. A relação econômica para com a cooperativa, por isso, não é vista como um mecanismo de poder preponderante. A explicação disso pode estar relacionada ao fato de que a maioria dos associados ter pequenas economias e enxergar na cooperativa um instrumento de força política, mais que econômica, quando levado ao terreno da economia individual. De acordo com os dados da pesquisa 77,5% dos entrevistados têm menos de 50 hectares de terra. Os dados também podem ser uma expressão de confiança dos associados na cooperativa.
Parece ter sido um dos erros históricos em muitas cooperativas, uma das falhas de gestão do funcionamento do empreendimento cooperativo o fato de que muitos administradores, executivos e funcionários burocratas, passaram a fazer a política da organização cooperativa, submetendo a associação-cooperativa ao seu comando. Em conseqüência disso, muitas vezes, submetiam também as atividades do processo educativo, suas funções, transformando-as em instrumentos de submissão do associado a uma organização cada vez mais distante de suas necessidades, interesses e objetivos. Afirma Morin (2000, p. 19): “Quanto mais técnica torna-se a política, mais regride a competência democrática”. O poder burocrático em organizações cooperativas apresenta certos riscos: a marginalização do associado.
A burocracia, ao transformar-se em poder político, tende a se aliar às exigências do mercado. Com essa inversão e aliança perde-se a essência da cooperação, não se realiza o projeto cooperativo, como um processo social, político e cultural, com a finalidade de dar poder aos associados.
Ao nosso ver, essa inversão, parece ter sido um dos aspectos da crise do cooperativismo, especialmente, a crise das cooperativas de trigo e soja no Estado do Rio Grande do Sul. As relações de poder eram exercidas pelo Estado, pelo capital ou por 'grupos de poder', dentro da organização cooperativa, representados por grupos de cooperados ou pela burocracia, os quais nem sempre estiveram associados aos interesses e objetivos comuns da maioria dos associados. Isso se constitui uma inversão de ordem nas relações de poder entre a associação e a empresa cooperativa. Essa inversão contém o risco da instabilidade da organização cooperativa.
O associado deve exercer o controle político. Ele dá o sentido à ação administrativa. Por isso, diálogo, interlocução de saberes, comunicação de conhecimentos e informações entre associados, dirigentes, executivos, burocratas e quadro funcional são fundamentais para a estabilidade do empreendimento cooperativo. Entre a associação-cooperativa e a empresa-cooperativa, os dois pólos da organização cooperativa, deve existir um constante fluxo de informação e comunicação, gerando transparência e confiabilidade.
A transparência e a confiabilidade são essenciais à estabilidade da organização cooperativa, mas elas devem estar embasadas em processos políticos e técnicos qualificados. Ou, em outras palavras, são produtos de um processo educativo-pedagógico, voltado ao projeto cooperativo e de relações de poder, enraizadas e fundadas na associação-cooperativa.

Bibliografia


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1 Texto produzido no contexto das atividades de pesquisa sobre cooperativismo com o apoio da FAPERGS. Uma versão mais reduzida foi apresentada no Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul – IV ANPeD-SUL, Florianópolis, novembro de 2002, sob o título “Educação e poder nas práticas de organização e funcionamento de organizações cooperativas”.
2 Professor da UNIJUI – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
3 A pesquisa foi realizada com apoio da FAPERGS – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul, da UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul e COTRIJUI – Cooperativa Regional Tritícola Ltda.
4 Lei nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971
5 A livre adesão é um dos princípios fundamentais do cooperativismo moderno
6 O espírito cooperativo está contido e expresso nos fundamentos e princípios da organização cooperativa: adesão livre e voluntária; controle democrático pelos associados; participação econômica dos associados; autonomia e independência; educação, treinamento e informação; cooperação entre cooperativas; preocupação com a comunidade
7 Conceito emprestado da física, através de K.Lewin , da psicologia e J.F.Brown, da sociologia, cfe.Mannheim,1962, p. 305-6.
8 Essa manifestação foi possível colher de um associado produtor de leite, após ter participado de uma reunião sobre as dificuldades de produção de leite, diante das exigências do mercado, realizada na sede da COTRIJUÍ no dia 08.09.2001.
9 Isso pode ser percebido no caso das atividades de produção de leite e da suinocultura.